Até chegar ao grande desafio de sua vida, Flávio penou. "Não passamos necessidades, mas a gente não tinha dinheiro para comprar as melhores bolas", conta Anderson Bahiense Rodrigues, amigo de infância. Tempos difíceis nos anos 80 no Jabour, bairro da periferia da capital fluminense, onde Flávio nasceu. Filho do militar João Baptista da Silva e da professora primária Ely Sant’ana, ele teve de estudar em escolas públicas na infância. Na adolescência, os pais rasparam o tacho para pagar um cursinho preparatório e Flávio conseguiu ser aprovado pelo Colégio Naval, ultrapassando quase mil candidatos por vaga. Depois de dois anos, desistiu. “A gente se decepcionou com a escola militar. Não era o que a gente esperava", diz André Pilcsuk, outro amigo da juventude.
Com 19 anos, em 1991, Flávio estava incomodado por ter de pedir dinheiro aos pais para ir ao cinema com a namorada Luciana – que viraria sua mulher – e decidiu procurar um emprego. Em pouco tempo, tornou-se o melhor vendedor de uma escola de inglês.
Depois de quatro anos, já com um cargo de direção e um salário de US$ 7000 dólares (R$ 15 mil), decidiu fundar seu próprio negócio. Com R$ 20 mil do cheque especial, alugou uma sala no centro do Rio. Nasceu a Wise Up. O pulo do gato era o formato: um curso de inglês para adultos com duração curta, de 18 meses. Um diferencial no mercado, caracterizado por cursos de sete anos. Além disso, o País vivia o auge da globalização em 95. Era preciso aprender inglês ontem.
Oito meses depois, era inaugurada a segunda escola, na avenida Paulista, em São Paulo. Em seu segundo ano, a unidade paulistana passou a faturar R$ 500 mil por mês e financiou a expansão da rede. As franquias consolidaram o sucesso e surgiu o Ometz Group. Em fevereiro deste ano, Flávio vendeu seu grupo para a Abril Educação por R$ 877 milhões (US$ 387 milhões). Quase ao mesmo tempo, conseguiu o aval da USL (United Soccer League), dona do futebol norte-americano, para adquirir o Orlando por US$ 100 milhões (R$ 215 milhões).
Apesar do crescimento exponencial da escola, o professor Reynaldo Pagura vê com ressalvas esse modelo. "É um modelo comercial que não tem nada de acadêmico", afirma. "Existe um consenso internacional de que é impossível aprender um idioma em 18 meses”, avalia o coordenador do curso de Letras: Inglês da Pontifícia Universidade Católica (PUC).
Futebol.

FUTEBOL
Até a compra do Orlando, o futebol só estava na vida do empresário com as peladas nas ruas de terra batida do Jabour. A decisão, portanto, foi racional. “Morei nos EUA entre 2009 e 2012 e acompanhei meu filho, que jogava futebol. Fiquei impressionado com a quantidade de jovens e seus pais e resolvi pesquisar”, conta.
Os números são impressionantes. São 24 milhões de crianças entre 5 e 17 anos que praticam futebol regularmente nos EUA. Em 2012, a MLS teve uma média de público por jogo 50% maior do que a média de público do Campeonato Brasileiro (15 mil pessoas). A ambiciosa Liga prevê estar no topo do mundo em 2022 e esse movimento já começou. Pela primeira vez na história do futebol nos EUA, os jogos da MLS serão transmitidos por quatro estações de TV (Fox , Espn, Nbs e Univision), em horário nobre.
A ideia de Flávio é surfar nessa onda e incluir o futebol no roteiro de viagem de mais de 750 mil brasileiros que visitaram a terra da Disney em 2013, segundo o Departamento de Comércio, Viagens e Turismo dos Estados Unidos. Foi o maior contingente de turistas internacionais, excluindo o Canadá, vizinho e país com estreitas relações com os Estados Unidos.
POLÊMICA
A construção do estádio para 25 mil lugares, prerrogativa para a entrada no campeonato nacional, no entanto, não é unanimidade. Uma pequena parcela dos moradores está preocupada com o investimento público e defende investimentos em outras áreas. O novo estádio vai custar US$ 110 milhões, dos quais, o governo da Flórida e a prefeitura de Orlando vão investir US$ 50 milhões, a outra metade vai sair do bolso do próprio Flávio. O uso de verba pública engrossa um coro ouvido em outras cidades.
Embora os clubes norte-americanos funcionem como empresas, a construção das arenas é um campo nebuloso, principalmente quando se trata do poder público. Todo o financiamento das obras no entorno do Yankee Stadium, por exemplo, foi financiado pela prefeitura de New York. Entre garagens, novas estações de trem e metrô, o investimento foi superior a US$ 300 milhões. Um escândalo à época.

As desapropriações para as arenas também representam um ponto polêmico. Em Orlando, a prefeitura comprou 19 das 20 parcelas de terreno necessárias para o início das construções. O lote final pertence ao Faith Deliverance Temple, uma igreja com 100 membros que realiza um importante trabalho comunitário com alcoólatras e mães solteiras. "A igreja é uma tábua de salvação para muita gente. E eles (Orlando City) querem nos expulsar", reclama Catherine Williams, a viúva do pastor fundador da igreja.
Em 2013, os líderes do templo ofereceram o imóvel para a Prefeitura por US$ 35 milhões (R$ 79 milhões). Não houve acordo. A Prefeitura se recusou a gastar mais de US$ 4 milhões (R$ 9 milhões) no lote, avaliado em US$ 700 mil (R$1,5 milhão). "É difícil recomeçar uma igreja com essa quantia", diz Williams.
Um juiz decidirá o destino do terreno no final desse verão. Se o martelo bater em favor da Prefeitura , a igreja receberá o valor proposto. Flávio acompanha a discussão à distância e afirma que não encontrou dificuldades ou restrições para ser aceito na comunidade.
Nos Estados Unidos, os governos municipais costumam se aliar aos times para acelerar a posse dos terrenos. A cidade de Arlington, no Texas, teve problemas com as indenizações de dezenas de moradores para a construção das instalações dos Cowboys e Rangers; Nova York viveu caso semelhante com os Nets.
O argumento é sempre o mesmo: os estádios geram empregos, novos investimentos e deixam um legado para a comunidade, uma discussão muito familiar para os brasileiros antes, durante e depois da Copa.