Prestes a vestir novamente a camisa do São Paulo, Kakárevelou seu sonho de ser campeão brasileiro pelo clube que o revelou, o São Paulo. Durante a semana o jogador recebeu a apresentadora do Esporte Espetacular, Glenda Koslowski, para uma entrevista completa em que falou sobre tudo.
Kaká falou sobre a campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo, as diferenças táticas e de treinamento adotadas na Europa em relação ao Brasil, a importância de atletas experientes entre os mais novos, deu sua visão de fora sobre a situação ruim do futebol brasileiro no momento, falou da sua passagem pelo Real Madrid e a relação com o técnico português José Mourinho.
- Foi um cara que me ajudou muito a crescer, me ajudou a ter paciência, perseverança, a lutar, a saber respeitar as decisões do treinador. Aprendi a respeitar muito as escolhas do treinador. Ele me ajudou a amadurecer, se passei de uma fase de menino para adulto, foi nesse momento de grande dificuldade que eu passei com o Mourinho - disse.
Focado em se preparar também para a estreia no Orlando City, em 2015, meia disse ter vontade de retornar à Seleção, garante não ter mágoas por não ter sido convocado para o Mundial no Brasil, e acredita que a escolha de Dunga como novo técnico pode, sim, representar um recomeço importante para o grupo que pretende conquistar o hexacampeonato.
- O Dunga tem excelentes números na Seleção. Acho que pode ser um ponto de partida importante, vai ser um cara que pode empurrar e fazer com que a Seleção volte a ter bons resultados e, claro, na expectativa do hexa, que é o que todo torcedor brasileiro quer. A Copa é uma coisa única, mas vamos pensar no hoje (sobre retorno à Seleção). Quero fazer minha parte no São Paulo e ser premiado se tiver um bom rendimento (risos). Gostaria de jogar bem, de ter resultado no São Paulo. Tenho que fazer em campo, e aí se esse prêmio chegar vai ser muito bem vindo - disse.
Se existe mágoa de algum jogador pela não convocação para o Mundial no Brasil, Kaká garante que não é dele. Acompanhado do filho na estreia contra a Croácia, em São Paulo, ele falou com jogadores no campo antes do início da partida, e diz ter consciência de ter feito tudo para estar entre os 23, mas como não foi possível, fez questão de ver de perto a competição.
- Eu fiz tudo o que podia dentro das minhas decisões, dentro da minha dedicação, dentro da minha vontade para estar na lista final da Copa, mas a escolha final foi do treinador. O que eu pude fazer para estar lá eu acho que fiz, e por isso eu não tenho nenhum sentimento de frustração em relação à isso. Não fiquei triste. Tudo que eu podia fazer que estava nas minhas mãos para estar na convocação final, acho que eu fiz. Meu maior respeito pela escolha do treinador - declarou.
Por falar em técnico, um marcou a carreira de Kaká de forma especial. Barrado e colocado no banco no final da sua passagem pelo Real Madrid com liderança de José Mourinho, jogador diz que não vê o português como carrasco.
- Foi um cara que me ajudou muito a crescer, me ajudou a ter paciência, perseverança, a lutar, a saber respeitar as decisões do treinador. Aprendi a respeitar muito as escolhas do treinador e sempre fazer o que estava ao meu alcance para tentar convencê-lo. Foi o que eu fiz durante esses três anos que eu trabalhei junto com ele. Ele me ajudou a amadurecer, se passei de uma fase de menino para adulto, foi nesse momento de grande dificuldade que eu passei com o Mourinho. De qualquer forma o Real Madrid não foi ruim para mim, eu tenho 120 jogos no clube, com 28 gols, isso dá uma média de 30 jogos por ano, com três títulos: campeão espanhol, campeão da Copa do Rei, da Supercopa espanhola.
Sem atuar desde o dia 18 de maio, na vitória do Milan por 2 a 1 sobre o Sassuolo, pelo Campeonato Italiano, e já com passagens compradas para os Estados Unidos onde irá morar em 2015, Kaká veio passar férias no Brasil e, na sua visão de fora, da arquibancada, disse não sabe explicar o que aconteceu com o Brasil na goleada por 7 a 1 contra Alemanha, e que futebol a culpa não pode ser individual.
- De torcedor, realmente, sentimento de tristeza de ver o Brasil passar por uma situação tão difícil, no nosso país, em uma semifinal de Copa do Mundo. Meu sentimento foi, como de qualquer torcedor brasileiro: ficar triste e muito chateado. Eu não sei explicar, nem quem estava lá dentro conseguiu, com palavras, explicar o que aconteceu, principalmente na semifinal. Eu não consigo falar para você o que foi, quem foi o culpado, ou qualquer coisa nessa direção. Indicar e apontar o dedo para um responsável em um esporte coletivo como o futebol não acho justo.
Para Kaká, que atua no futebol internacional há 11 anos, o futebol brasileiro vive um momento de fragilidade estrutural, mas não de revelação de talentos.
- Acho que o futebol brasileiro continua sendo um dos maiores formadores de talentos, eu tenho visto isso nos clubes e na própria Seleção, o que eu acredito é que precisa dessa reformulação geral do futebol brasileiro, em termos de calendário, em termos de compromisso dos clubes, em termos de melhorar ainda mais a formação de atletas. Planejamento e organização a longo prazo, não tão imediatista.
Kaká conversou com Glenda (Foto: Reprodução)
O QUE PRECISA RENOVAR NO FUTEBOL BRASILEIRO?
Na minha opinião, principalmente, em relação a planejamento e organização. Eu acho que não pensar tanto no imediatismo, a gente ainda é um país, não só no futebol, mas de forma geral, que pensa muito no imediatismo, quer tudo agora. No Campeonato Brasileiro a gente vê isso, o treinador tem que dar resultado nos três, quatro primeiros jogos, senão ele já é demitido. Pegando a Alemanha como exemplo, que reformulou tudo. Não foram campeões em casa em 2006, mas mesmo assim continuaram fazendo o planejamento deles, seguindo aquele planejamento, claro, em algum momento você tem que ajustar, mas, de qualquer forma, pensaram a longo prazo e hoje estão colhendo os frutos.
COMO VOCÊ LIDA COM A IDADE AGORA?
É muito louco um pouco, passa muito rápido, o salto é muito rápido, é interessante tudo isso. A situação te empurra para um momento de responsabilidade e de liderança que você tem que assumir naquele momento, mas é legal, é muito bom, faz crescer bastante.
TER JOGADORES EXPERIENTES NO GRUPO É FUNDAMENTAL?
Gosto dessa receita. Os lugares onde eu tive o maior sucesso 'foi' onde existiu essa mescla de experiência com a juventude. Aconteceu comigo quando eu cheguei no Milan com 21 anos em um grupo novo. Convivendo com o Maldini, com o Cafú, mais o Rogério (São Paulo), três exemplos que eu gosto de citar muito no futebol, porque são jogadores que conquistaram tudo, tudo o que eles podiam dentro da carreira deles, e mesmo assim eles continuavam a ter uma motivação de ser o primeiro no treino, não chegar atrasado, ser disciplinado, ser profissional, então aprendi muito desses jogadores. Aprendi principalmente a ter uma mentalidade vencedora. Se eu puder transmitir essas coisas para um jogador que está começando, eu acho que é uma coisa positiva.
NA SUA RECENTE PASSAGEM PELA SELEÇÃO, SENTIU QUE OS JOGADORES VIAM ESSA EXPERIÊNCIA EM VOCÊ?
Senti, e na Seleção, como vai criando um ambiente muito amistoso, muito legal, eles vão se abrindo um pouco, então o David Luiz chegava para mim e falava: "cara, quando eu tava crescendo no São Paulo você era o meu ídolo, hoje eu estou aqui com você". O Oscar a mesma coisa. Minha responsabilidade já é outra no grupo, não é mais a mesma. É um sentimento muito bom, de uma responsabilidade. acho que foi boa essa passagem nesses dois jogos que eu fiz contra Rússia e contra a Itália.
FALTA TÁTICA NO FUTEBOL BRASILEIRO?
Não, até porque a filosofia do futebol é diferente em cada lugar. Na Itália treina muito a tática, muito. Durante a semana toda tem, pelo menos 40 minutos por dia de tática. Então, o jogador italiano já cresce dessa forma, desde a base. Então ele sabe se posicionar, ele sabe se organizar, ele vai crescendo com aquela mentalidade. No profissional aquilo é automático para ele. Na Espanha já é diferente, é muito mais jogado, muito mais parecido com o nosso futebol. Trabalha a tática, mas não tanto. Varia muito de treinador para treinador, de país pra país. Mas acho que essa Copa foi muito legal, você via times, 3-5-2, 4-4-2, acho que isso muda muito pouco, mas a forma com que os times conseguiam o maior tempo possível se manter organizado, o que pra mim foi uma lição. Eu estive na final e para mim, em relação a isso, foi sensacional. Nada de especial, 'o time jogou de uma forma diferente, com uma tática diferente', não, era o posicionamento deles durante todo o jogo, mesmo durante a prorrogação, já automático, isso é muito legal.
Kaká foi, como sempre, muito atencioso ao atender o EE (Foto: Reprodução)