Juvenal Juvêncio: o último dirigente da sua espécie

Presidente deixa o cargo no São Paulo nesta quarta após oito anos no poder

Fonte Estadão
Juvenal deixa São Paulo modernizado estruturalmente
Juvenal Juvêncio terminou de tirar seus pertences da sala da presidência do São Paulo após oito anos cercados de títulos e polêmicas que ajudaram a construir a imagem de um dos dirigentes mais vencedores e icônicos do futebol brasileiro, um verdadeiro puro-sangue da categoria. Nesta quarta-feira, Juvenal deixa o comando do clube para entrar no seleto grupo dos lendários ex-presidentes que fizeram história no Morumbi.
A transição será da forma como sempre sonhou. Sua última obra será concluída quando Carlos Miguel Aidar, candidato que apoia, for eleito seu sucessor em eleição no Conselho Deliberativo. Na prévia, o grupo Avança São Paulo, da situação, conquistou 49 das 80 cadeiras de conselheiros e encaminhou a vitória do grupo que está no poder. Para Juvenal, a eleição apenas atesta que seu mandato colheu muito mais frutos positivos, apesar de no último ano ter visto crescer uma oposição que já chegou a caber "dentro de um fusquinha", nas palavras do vice de futebol João Paulo de Jesus Lopes.
Agora, Juvenal pensa apenas em descansar. A primeira coisa que fará quando deixar o posto é ir para Aparecida agradecer pelo período à frente do clube e pela força na luta contra um tumor de próstata. Depois irá para Santa Rosa de Viterbo, sua cidade natal, descansar com a sensação de missão cumprida, mas ainda sem saber exatamente como se sentirá sem o dever de comandar o São Paulo.
"É o day after que indica essas coisas, no dia você se diz preparado. Mas no momento chegando é que você tem uma reação mais próxima. Está na hora de sair e deixar outros administrarem, mas entendo que precisava ficar naquele momento e trazer um pouco mais ao clube", diz Juvenal. Por "aquele momento" entende-se a mudança do estatuto que o permitiu disputar o terceiro mandato. À época, o São Paulo ainda aspirava a ter o Morumbi como palco da Copa do Mundo, mas viu o estádio ser preterido pelo Itaquerão, do arquirrival Corinthians.
OPOSIÇÃO
Foram justamente os últimos três anos de gestão que trouxeram maior desgaste. O mesmo estilo centralizador e muitas vezes duro (chamado de autoritário, por alguns) de comandar o clube que acabou pesando para que as vozes insatisfeitas começassem a subir de tom e se aglutinassem em torno de Marco Aurélio Cunha, ex-superintendente de futebol, ex-genro de Juvenal e atualmente seu principal adversário. A ele se juntaram ex-presidentes, ex-colaboradores da gestão atual - como Kalil Rocha Abdalla, candidato à presidência pela oposição, que até o ano passado era diretor jurídico do clube.
A isso somou-se a falta de títulos - apenas uma Copa Sul-Americana nos últimos seis anos - e uma série de brigas políticas com CBF, Federação Paulista e outros clubes que ajudaram a minar o prestígio do Tricolor. Só com a candidatura de Aidar que o presidente cedeu e começou a costurar os laços com as entidades novamente. "Você não tem alegrias e reconhecimento, mas ninguém procura isso. Você administra paixões, é uma coisa muito difícil. Se você não governar com a razão, sua instituição perece, mas seus conselheiros são emoção. É uma tarefa dura."
LEGADO
Mas além das fartas conquistas até 2008, Juvenal deixa como legado a modernização da estrutura do São Paulo com a construção do CT de Cotia e melhorias sensíveis no CT da Barra Funda e no Morumbi. Laudo Natel, ex-presidente do clube, costuma dizer que Juvenal construiu um novo estádio dentro do outro. A cereja do bolo é o projeto de cobertura que deve ser votado logo após o pleito para presidente.
Uma lacuna, porém, será difícil de ser preenchida. As declarações fortes e de português rebuscado, o jeito muitas vezes caricato - com direito a pausas dramáticas entre uma frase e outra e entonações singulares - e o estilo de comando torna Juvenal o último da sua espécie. Temido por uns, adorado por outros e respeitado por todos (incluindo jogadores e comissão técnica) deixa o São Paulo chamuscado pelo terceiro mandato de enormes dificuldades dentro e fora de campo, mas com um currículo vencedor e um carisma que o colocam no rol dos dirigentes mais icônicos do futebol brasileiro.
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