Lédio Carmona: A guerra dos 10 por cento


E continua a polêmica dos ingressos em São Paulo. Como o blogueiro-chefe ainda nâo conseguiu se posicionar por absoluta falta de tempo, recorremos a dois jornalistas com opiniões divergentes. Uma saudável discussão. Que continue dentro dos comentários da boleirada do JA.

Ele é a favor da decisão

Ubiratan Leal
Balípodo

A diretoria do São Paulo anunciou que só cederá 10% dos ingressos para a torcida do Corinthians no clássico do próximo domingo. Vai ter gente chiando, mas o Tricolor está certo. Como os corintianos estarão certos se tomarem a mesma decisão quando tiverem o mando em algum Majestoso no futuro.

Em um futebol que se pretende organizado, os clubes têm boa parte de seu público na base de carnês, comercializa camarotes e outros espaços em seus estádios. Salvo casos isolados, isso ainda não ocorre no Brasil. Ainda assim, para defender uma profissionalização do futebol daqui, é preciso haver as condições adequadas. Uma delas é preservar os mandos de campo.

Pensando em um mundo ideal, como dividir o Morumbio ao meio (35 mil ingressos para cada torcida) se o SDão Paulo tiver 45 mil carnês vendidos ou títulos de sócios-torcedores com direito a ingresso preferencial? Como o Palmeiras vai comercializar camarotes em seu estádio se os jogos mais importantes vão ao Morumbi, onde há outros donos de camarotes?

Nesse aspecto, o São Paulo está certo em tratar o Corinthians como visitante. Só é preciso que a federação paulista, em 2010, inverta o mando de campo nesse duelo e permita que o Alvinegro jogue no Pacaembu, cedendo apenas 4 mil ingressos aos tricolores.

Ele é a contra a decisão

Emerson Gonçalves
Um Olhar Crônico Esportivo

Tinha um texto preparado para colocar no Olhar Crônico Esportivo em parte explicando, novamente, e em parte rebatendo algumas críticas, quando o Lédio pediu-me para escrever contra a instituição da cota de 10% no Morumbi. Vamos lá, agora temperado pela quantidade avassaladora de comentários contrários à minha posição.

Gosto de futebol e da paixão que o envolve. Por isso sempre gostei do Morumbi lotado em memoráveis Majestosos, Choques-Rei e Sansões, sem falar dos Derbies que acompanhei à distância. Gostava das bandeiras e das charangas. Acreditem, cheguei ao cúmulo, para desespero dos ouvidos mais próximos, de eventualmente “tocar” surdo na torcida uniformizada Coral, da qual fiz parte do final de 1969 a meados de 1972. Quando a polícia paulista, em nome de uma segurança mandrake proibiu as bandeiras nos estádios, fiquei amargurado. Tenho inveja do Maracanã cheio de bandeiras. Agora passarei a ter inveja do Maracanã e do Mineirão divididos por duas torcidas.

Junto com a inevitável segmentação dos estádios, presenciaremos o fim dessas festas do futebol.

Sim, sim, sim, eu sei, segmentar é preciso e eu mesmo defendo e elogio a segmentação dos estádios. Estão por aí meus textos que não me deixam mentir. Simploriamente falando, segmentar é progredir e modernizar. E ao segmentar, reduz-se em muito a possibilidade da velha “divisão” de estádio.

Ora, pílulas, então por que cargas-d’água estou criticando a decisão do presidente do São Paulo em dar somente 10% da carga de ingressos para a torcida corintiana no Majestoso desse domingo?

Porque Majestoso só merece esse nome com o Morumbi lotado e “dividido”, mais ou menos dividido, pois isso nunca foi uma operação matemática.

Esse meu desejo é casuístico, só se aplica a esse confronto contra o Corinthians, pois há muitos anos Palmeiras e Santos abdicaram de dividir seus estádios com a torcida do São Paulo. Aliás, pensando bem, nunca houve divisão nos jogos em seus estádios, somente nos que foram realizados no Morumbi. Logo, infelizmente, não haveria porque fazer diferente nos jogos com mandos do São Paulo contra essas equipes.

No caso do Corinthians, entretanto, é diferente. Ao longo do tempo os dois clubes “meio que dividiram” os espaços. Embora seja o Morumbi a casa do São Paulo, o Corinthians já mandou ali mais de 500 partidas oficiais desde sua inauguração. Não é pouca coisa. Conflitos aconteceram, desafortunadamente, mas não são eles que devem ser lembrados e sim os grandes jogos, grandes decisões, resultados dramáticos ora para um, ora para outro. Por ali eu vi Gerson contra Rivelino, Sócrates contra Careca, vi Raí contra Marcelinho, vi Tupãzinho e Vladmir, vi Terto e Serginho, vi Oscar e Dario, assim como Gamarra e Biro-Biro. E, naturalmente, Carlitos Tevez e Rogério Ceni, entre outros, muitos outros, em grandes jogos.

Hoje, e disso não tenho dúvida, Corinthians x São Paulo é o maior, mais importante e mais aguardado confronto entre os times paulistas. É natural que assim seja, dado o passado recente das duas equipes. Ao limitar a presença corintiana, muito desse brilho, dessa tensão saudável dos grandes jogos, será perdido. Uma perda irreparável.

Ah, mas o Morumbi segmentado não tem como abrigar mais de 10% de uma torcida visitante, dizem.

Hummmmmm…

Não é bem assim.

Em nome da história, em nome do futebol, em nome de uma relação que considero importante para os dois clubes, poderia sim a direção tricolor negociar uma solução de consenso com a direção corintiana. Como já disse, a divisão meio-a-meio é mais mito que realidade, nunca foi bem assim. Estou certo que, numa mesa de negociação, os dois presidentes poderiam chegar a um acordo que, mesmo levando à perda de uma parte de toda essa história, preservaria as boas relações entre os dois clubes.

O aspecto financeiro, mesmo que o Corinthians não mais jogue no Morumbi como mandante, não é algo que preocupe a direção tricolor, não mesmo. Mas à direção do São Paulo seria bom pesar cuidadosamente a importância de ter o time do Parque São Jorge como aliado ou, na pior das hipóteses, como elemento neutro, na Federação Paulista de Futebol e no Clube dos 13.

O bom “príncipe” vence sem combater, conquistando apoios ou a neutralidade de adversários potenciais. O bom guerreiro evita o confronto desnecessário, num refinamento da arte da guerra. Um pouco de Machiavelli e de Sun Tzu mal nenhum faria nesse momento ao presidente do São Paulo.

Essa “guerra dos dez por cento” não deveria existir.

E as bandeiras deveriam voltar aos estádios paulistas, ainda mais agora.

PS: outra diferença entre os dois. Um escreve pouco (em quantidade)… O outro, muuuuuuuuuuuuuito… Hehehehe

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