Tostão faz crítica magistral à "torcida modinha."
Tostão
TUDO E NADA A VER COM O 7 A 1
18/02/2015 02h00
O Corinthians possui a vantagem de jogar em seu estádio, mas não terá Guerrero. Antes, exageraram sua importância, como se o Corinthians fosse um timeco sem ele. Agora, subestimam sua ausência. No Brasil, é depressão ou euforia.
Uma das qualidades das equipes dirigidas por Tite é a marcação por pressão. Como o São Paulo é o time brasileiro que melhor troca passes no meio-campo, a pressão em quem está com a bola pode ser importantíssima. Porém, há riscos de os marcadores serem envolvidos e sobrarem muitos espaços na defesa.
Muricy, desde o ano passado, procura um jogador veloz pelos lados. Já experimentou uns 500, e nenhum agradou. Todos são iguais a Osvaldo. A esperança é o argentino Centurión, mas ele ainda não pode atuar pela Libertadores. Todas as outras equipes brasileiras procuram também esse jogador. Com raras exceções, todos correm muito, mas não têm técnica nem lucidez. Tem a ver com o 7 a 1.
Durante muito tempo, aconteceu algo parecido. Todos os times queriam laterais velozes, que avançassem bem e que jogassem como Cafu e o excepcional Roberto Carlos. Não encontraram. Pior, todos os times tinham um volante marcador de cada lado, para fazer a cobertura dos laterais, além de um terceiro volante, pelo centro e mais recuado. Um horror, com aplausos dos admiradores dos treinadores. Tem a ver com o 7 a 1.
Por causa disso, os times procuravam também um meia clássico, o único responsável pela criação de jogadas. Tivemos excelentes. Mas como jogavam em pequenos espaços, eram, muitas vezes, facilmente marcados. Quando brilhavam, eram endeusados. Quando não jogavam bem, eram rotulados de desinteressados. Por melhores que fossem, a dependência desse único meia, que nunca existiu no auge do futebol brasileiro (anos 1960 e 1970), tem também a ver com o 7 a 1. Não se deve confundi-los com os antigos meias armadores e pontas de lança.
Desde o ano passado, Muricy tem dúvidas se escala Ganso pela direita, Michel Bastos pela esquerda (antes, era Kaká) e dois atacantes (Luís Fabiano e Alan Kardec) ou se põe um jogador veloz pela direita e Ganso pelo centro, mais próximo a Luís Fabiano. Sairia Alan Kardec. Ele ainda pode jogar com três zagueiros, como no sábado. Michel Bastos seria o ala pela esquerda, Thiago Mendes ou Bruno, o ala pela direita, e Ganso atuaria pelo centro, além de Luís Fabiano.
O São Paulo possui três ótimos volantes (Denílson, Souza e Maicon). Podem, ainda, jogar os três, mais Ganso, além de Michel Bastos e Luís Fabiano. As críticas e vaias a Maicon são decorrentes do ultrapassado conceito de que armador habilidoso, que gosta de trocar passes, não pode ser volante. Tem de ser meia ofensivo. Faltam ao nosso futebol meio-campistas, com as características de Maicon, porém melhores. Nem a Seleção tem, no meio-campo, um jogador excepcional. Tem a ver com o 7 a 1.
O clássico de hoje, entre equipes que tentam jogar um futebol agradável e eficiente, dirigidas por treinadores sérios e atualizados, não tem nada a ver com o 7 a 1. É a esperança de novos tempos.
Tostão
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/2015/02/1591076-tudo-e-nada-a-ver-com-o-7-a-1.shtml
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