Até quando ainda vamos subestimar o mercado sul-americano?
Que o Campeonato Brasileiro, nos últimos anos, tem sido o mais competitivo da América do Sul, pouca gente discorda. Que os clubes brasileiros têm detido uma supremacia financeira sobre os clubes dos demais países da região, também não é novidade para ninguém. Dito isso, era de se imaginar que, além de conseguir manter seus principais jogadores por mais tempo do que os vizinhos (o que na maioria das vezes acontece), nossos clubes dominassem o mercado sul-americano de jogadores, sempre trazendo promessas e destaques dos países próximos.
Pois é nesse segundo aspecto que eles pecam. Mesmo tendo condições de fazer propostas bem mais atraentes por jogadores argentinos, uruguaios, chilenos, paraguaios e colombianos, entre outros, os brasileiros exploram muito mal esses mercados.

Normalmente, para despertarem o real interesse de dirigentes daqui, os jogadores sul-americanos precisam arrebentar em uma Libertadores ou Copa Sul-americana, ou então ser carrasco de um time brasileiro em alguma dessas competições. Até isso acontecer, ele ganha valorização, seu passe fica bem mais caro e acaba atraindo interesse até de clubes europeus, forçando os clubes daqui a desembolsarem um valor que nem sempre compensa. Fora que contratar um jogador tendo como base apenas a sua performance em uma competição de seis meses, sem conhecer melhor o histórico de sua carreira, é bastante arriscado – contratações como Guerrón no Cruzeiro em 2009 e Martinuccio no Fluminense em 2011 mostraram isso. Dois “craques de Libertadores” que foram fiascos no Brasil (ainda que Martinuccio tenha sido útil posteriormente atuando no Cruzeiro).

Isso poderia tranquilamente ser evitado com um bom trabalho de scouting, ou seja, de observação detalhada e frequente dos demais campeonatos da América do Sul. É um trabalho que pode demandar certo tempo, mas que não é tão difícil e nem caro de se fazer. Se os clubes brasileiros deixassem a preguiça de lado e fizessem esse tipo de investimento, já poderiam ter garimpado, por exemplo, talentos como Arrascaeta, uruguaio de 20 anos que faz grande Libertadores pelo Defensor (e já foi ciscado pelo Galatasaray), e Jorge Correa, argentino de 21 anos que também vem bem no torneio continental pelo Vélez Sarsfield.
Ao invés disso, preferem investir fortunas em jogadores veteranos e em decadência física e técnica na Europa, que muitas vezes chegam com pompa de craque e acabam fracassando por aqui ( Forlán e Lúcio mandam lembranças).
Não que seja errado contratar atletas renomados e experientes do exterior. Muitos deles chegam ainda em condições de sobrar nas competições daqui e dar títulos às suas equipes, mas isso não pode continuar minando a criatividade dos clubes no momento de contratar. Investir em um jogador jovem, promissor e menos caro pode preencher lacunas em um elenco tão bem quanto uma ex-estrela do futebol europeu.

É claro que, por vezes, esse tipo de jogador pode não se adaptar ao futebol brasileiro ou não corresponder à expectativa inicial, como é normal quando se contrata uma aposta. Mas a quantidade de bons talentos que saem cedo de países como Argentina, Uruguai e Colômbia diretamente para a Europa e que poderiam ter passado antes pelo Brasil não é pequena. Um mercado rico de boas opções que os brasileiros teimam em subestimar.
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