Emerson Leão recebeu a reportagem do Estado no CT da Barra Funda antes do treino da última sexta-feira, 1. Exibindo o semblante tranquilo, que caracteriza sua segunda passagem no Morumbi, o treinador fez jus ao seu estilo e não fugiu de nenhuma pergunta. Em entrevista exclusiva, falou dos desdobramentos do caso Paulo Miranda, ressaltou (e elogiou) a pluralidade de pensamentos no clube, analisou seu próprio trabalho à frente do clube e garantiu que não há nenhum garoto das categorias de base capaz de ser promovido ao profissional e repetir o sucesso de Lucas e Casemiro.
De unanimidade, você de repente se viu na berlinda. As coisas parecem mais calmas. Dá para dizer que depois da tempestade chegou a hora da bonança?
Você pode classificar bonança como tranquilidade, uma calmaria e um reconhecimento do que você pensa. Pode ser também aquele filme antigo (Bonanza, seriado de Velho Oeste que foi sucesso nos anos 1960) que a mãe da família morreu, mas todos os filhos colaboram com o pai. É mais ou menos o que acontece com os jogadores que recorrem à família São Paulo e é isso que nós queremos. Às vezes as tempestades acontecem independente do clima, e futebol é como o clima. Você pode sair para pescar, aí vem a tempestade e te deixa à deriva, cabe a você ter a experiência de conduzir a nau a um porto seguro.
Sua preocupação era que não ficassem sequelas do caso do Paulo Miranda...
Acho que sequelas não se limitam à relação treinador e diretor, existe também a questão do atleta. Faço de tudo e continuo fazendo para que aquilo seja um episódio superado e arquivado, sem recurso em nenhuma outra instância, já foi tudo julgado. Eu diria que é como lixo, que deteriora e desaparece.
Conversou com a diretoria sobre o assunto depois?
Não. Sigo com aquilo para o qual assinei contrato. Sou técnico de futebol, o "green" é meu e não existe interferência nele. Aquilo não foi uma interferência e depois revisaram sua decisão, o que foi ótimo porque ele voltou para o lugar de onde ele havia saído.
Você fala no índice de aproveitamento, mas como avalia qualitativamente seu trabalho?
Acho que não existe qualidade sem resultado e o resultado não aparece sem haver a qualidade. Você tem meio para consegui-la, mas como vai fazer para alcançar isso compete ao treinador. O que deixa mais evidenciada essa liberdade é não ter compromisso com multa, como deixei bem claro e o clube também. Somos os dois livres, é mais ou menos como um freelancer, só que você precisa se aprimorar cada vez mais. Mas não existe tese que mantenha um treinador sem resultados, não tem camisa 1 que segura goleiro com muitas falhas.
A equipe está jogando como você quer?
Quando entramos nesse ano, tínhamos algumas coisas elaboradas sobre padrão de jogo, mas perdemos algumas delas no meio do caminho. Demoramos para reconquistar o (Luis) Fabiano na sua plenitude e ainda hoje ele é quem mais provoco. Perdemos peças importantes e estamos na iminência de perder mais um, o Denilson. Achamos um novo Denilson e agora o (Arsene) Wenger (técnico do Arsenal) o chamou de volta. Tem o Casemiro, que teve um apogeu e decadência incríveis e está agora retomando. Espero que o retorno à seleção não faça mal a ele, até porque está ainda procurando o lugar dele no time. Acho que poderíamos estar melhor se tivéssemos com todo mundo assentado, mas estamos há seis meses com um goleiro novo e pouco se fala dele.
Seus entusiastas dizem que o São Paulo joga para frente e bonito. Os críticos reclamam de falta de padrão de jogo. Alguém está totalmente certo?
Se jogamos agressivos é porque temos condições de tornar um time assim. Tenho velocistas, não sei utilizá-los sem ser agressivo. Tenho um goleador que tem a necessidade de chutar a gol e precisa ser estimulado. Para alimentá-los eu preciso de um criativo, que ainda não atingiu o nível que ele mesmo deseja, que é o Jadson. Com relação a tática, acho engraçado quando leio vocês e vejo alguns supostos entendidos falando e analisando o que fazemos. Eu acho engraçado e sempre digo que esse jogo que vocês enxergam é diferente do meu (risos). Mas para falarmos de esquema, te digo que não vai ter um definido. Quero ter liberdade para movimentar meus atletas de acordo com a necessidade e é isso que tenho feito.
Você criou o termo "futebol bailarino" na época da seleção e o "cascudo" na sua primeira passagem no clube. Qual dos dois se adequa melhor à equipe de hoje?
O cascudo deu mais certo, né (risos)? A questão do bailarino era dizer que precisávamos voltar à nossas origens, ter a capacidade de improvisar sem perder a harmonia. Já o cascudo é ter um objetivo em mente e cumpri-lo com determinação. Temos um pouco dos dois, penso. Não adianta pedir a jogadores como Fernandinho, Jadson e Osvaldo serem cascudos, não é da essência deles. Outros, como o Cícero, o Paulo Miranda, o Denilson, esses sim conseguem ter essa característica. É importante ter os dois tipos.
Quantos reforços acha que faltam para fechar o elenco?
Lembra que contra o Santos no Paulista nós perdemos o Fabiano? Ele fez uma tremenda falta, mas apostamos no Willian. Aqui nós temos trabalhado sempre para trazer as peças de reposição. Quem era o titular antes do Denilson? O Wellington, que se machucou. Quem seria a peça de reposição ideal para ele e foi contratado para isso? O Fabrício, que está há quase sete meses sem jogar. Essa é nossa realidade. As opções disponíveis são pouquíssimas e as que existem o São Paulo não vai gastar para contratar.
A solução pode estar na base?
Não tem ninguém pronto ainda. Assim que eu cheguei fui em Cotia perguntar se tinham alguém preparado e me disseram que não. O ápice desses meninos é na Copa São Paulo e você viu o que aconteceu (o São Paulo caiu na primeira fase). Para você jogar não é só uma questão de idade, mas de maturidade e qualidade. Ainda não temos ninguém que possa vir de lá.
Você está visivelmente mais tranquilo. Isso foi algo natural ou você apenas controla o temperamento?
Quando cheguei aqui me disseram que em uma entrevista falei muito mais do que alguns treinadores anteriores a mim. Vou te falar que é engraçado, saio na rua e os torcedores me falam cada coisa que se você soubesse ficaria de cabelo em pé. Foi uma opção minha (ser mais calmo), mas as pessoas sabem como eu sou, falo as coisas mesmo. Se alguém me conta algo, não me fala "por favor, Leão, isso é segredo" e outra pessoa pergunta quem me contou, eu vou lá e aponto. Meus jogadores sabem que sou assim, as pessoas que me conhecem há tempos sabem que sou assim e não mudo. É algo que faz parte de mim.
'Cabe ao técnico levar a nau ao porto seguro', diz Emerson Leão
Treinador diz que não há uma tese que sustente um profissional no comando de um time sem bons resultados
Fonte Estadao
3 de Junho de 2012
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