Existem circunstâncias muito específicas que, operando em conjunto, levam a um jogo como o que se presenciou no Morumbi, o clássico Majestoso que valia a vaga na decisão da Copa do Brasil. Primeiro porque havia o próprio São Paulo, em furiosa procura pela redenção que vai, em algum momento, encerrar o jejum de títulos nacionais. Também havia Dorival Júnior, aparentemente tranquilo, mas postado na beira do gramado mais tenso que uma capivara em busca da façanha coletiva mas, impossível negar, também individual. Há vinganças que não prescrevem, sabemos todos.
Contra o Corinthians, não era qualquer Dorival. Tampouco era qualquer São Paulo e, sobretudo, não era qualquer mata-mata. Com mais de sessenta mil almas presentes no Morumbi, os tricolores desabaram sobre o histórico rival de forma poucas vezes presenciada. Quando Wellington (antes Rato, desde ontem Leopardo), acertou aquele petardo engatilhado há doze séculos, o São Paulo já havia mostrado que jogava um jogo compreensível apenas para são-paulinos. Porque no emaranhado cósmico do já histórico 16 de agosto havia, sobretudo, os são-paulinos, dentro e fora do Morumbi, talvez em cima e embaixo também, que se encarregaram de injetar no concreto todos o combustível hormonal necessário para erguer da noite todas as mitologias.
Além de Rato, de Calleri e da linha do meio-campo, que como um campo eletromagnético se encarregou sozinha de afastar o Corinthians, houve sobretudo Lucas Moura, que passou a noite voando em campo como se jamais tivesse perdido o encanto do terrão, como se o clássico estivesse sendo jogado na várzea, que é onde de fato as coisas assumem contornos irremediavelmente viscerais. Uma trajetória que convergiu para a jornada de ontem, contra o Corinthians o sonho de todo guri, o desejo de todo profissional.
Durante grande parte da noite, os dois gols marcados no primeiro tempo deixaram a impressão de que mostravam os atalhos, mas ao fim da jornada eles se tornaram o próprio caminho apenas graças a Cássio, um monumento que resiste em meio às derrotas, o placar não se multiplicou. Houve, ainda, um protocolar sufoco nos minutos finais, motivado menos por desempenho do que por instinto de sobrevivência corintiano. No momento mais exigente (até aqui) da temporada, no entanto, o São Paulo executou o jogo praticamente perfeito, em termos técnico, táticos e anímicos. Para os são-paulinos, apenas parte de uma noite cravada na posteridade.
São Paulo 2 x 0 Corinthians - Melhores Momentos - Semifinal da Copa do Brasil 2023
Footer blog Meia Encarnada Douglas Ceconello — Foto: Arte
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