E para entender melhor essa saída conturbada, o repórter do FOX Sports Ricardo Lay conversou por telefone com o ex-coordenador de futebol do São Paulo. Em quase 12 minutos de entrevista, Mancini falou sobre a sua saída inesperada na última sexta-feira (27), logo após o anuncio da contratação de Fernando Diniz para substituir o técnico Cuca. De como se sentiu constrangido e desprestigiado. Sobre o carinho pelo novo técnico tricolor, que o chama de “padrinho, o excelente clima de trabalho que teve no Morumbi, acusando ainda Daniel Alves de ter interferido no seu acerto como treinador e que o seu futuro será na mesma função. Veja a entrevista na íntegra:
Por que você pediu o desligamento do São Paulo depois dá contratação do Fernando Diniz?
“Eu acho uma boa oportunidade para que eu possa esclarecer isso e deixar claro o que aconteceu. Não houve briga ou saída desgastante. Houve, sim, um choque de opiniões. A partir de o momento em que o Cuca pediu demissão, a diretoria me comunicou que eu seria o treinador e até me perguntaram quem viria comigo. Eu disse que um auxiliar e um analista. Perguntei se eu podia pedir para meu agente e procurador, Fabio Melo, ir até o clube, e disseram que sim. Então eu fiz o contato com meus auxiliares e agentes para que fossem ao clube. Me foi comunicado, também, que eu não daria o treino porque nós tínhamos mais coisas a discutir e resolver, e o treino seria ministrado pelo Pedro. Mas eu acompanhei o treinamento. Quando eu fui acompanhar o treinamento, alguns atletas foram conversar com a diretoria. Ao termino do treinamento, eu encontrei Fabio Melo e esperei na minha sala para que a decisão fosse tomada. No momento que eu entrei na sala da diretoria, já sem os atletas, eu fui informado de que tinha uma dúvida no ar, se a diretoria realmente ia bancar o que havia me dito momentos antes, ou se iriam para a contratação do Fernando Diniz, que era o pedido de alguns atletas. O que eu fiz naquele momento, é obvio que eu me senti desprestigiado, disse à diretoria que eu daria a solução, que eu estaria saindo por não concordar com o que estaria sendo feito. Dessa forma, deixaria a diretoria à vontade para fazer aquilo que era o desejo por eles. Então não tem nada mais do que isso, essa é a verdade dos fatos ocorridos. Eu lamento muito isso tudo, ter que tomar uma posição dessas, mas é uma posição de quem realmente não concorda com algumas coisas que foram feitas. Acho que a comunicação e a condução não foram bem-feitas e por isso acabei pedindo demissão.
Você acha normal jogador de futebol escolher o treinador?
“Acho normal você ouví-los, mas não acho normal que a decisão fique para eles. E esse foi um dos motivos da minha saída. Acho que a decisão tem que estar sempre nas mãos de quem tem o poder. O atleta pode ser ouvido, acho até saudável porque muitas vezes vem coisas interessantes que dá para você parar e analisar, mas a decisão tem que estar na mão de quem dirige o clube”.
No áudio que foi vazado você citou o Daniel Alves? Outros jogadores foram contra o seu nome como técnico?
“Então, difícil eu falar, porque nesse momento eu estava no campo. Mas eu fui informado e vi que um dos que saíram da sala foi o Daniel Alves. Não posso falar de mais ninguém. Independentemente de quem foi, acho que é até um direito de toda pessoa ter opinião e passar para frente. Eu não estou querendo dizer quem está certo ou errado, eu só acho que a minha manifestação, até porque tive um áudio vazado hoje, a minha decisão de sair do clube tem que ser explicada, e de forma correta”.
Como era seu relacionando com a diretoria e quem foi determinante, além dos jogadores?
“Isso fica difícil de afirmar. Eu não tenho como fazer nenhum tipo de afirmação desse tipo. Eu tinha um relacionamento maravilhoso com todos eles. O ambiente no São Paulo é um ambiente maravilhoso. Não é porque eu saí do São Paulo que isso mudou. Me dou com todos eles. A saída foi conversada, estudada, pensada. Lógico que eu tomei a decisão, eles até tentaram fazer com que eu voltasse atrás, mas naquele momento era a melhor decisão a ser tomada. Até para que eles tivessem a possibilidade de escolher aquilo que queriam naquele momento. Mas não houve ruído ou desgaste após minha saída”.
Você não acha um pouco confuso ser contratado como coordenador e depois ser chamado para substituir o Cuca, mesmo você sendo técnico?
“Eu tenho a mesma opinião. É um pouco confuso. A partir do momento que me chamaram para dizer que eu ficaria de treinador, eu deixei a diretoria muito à vontade para que quisessem ir atrás de qualquer outra pessoa. Até porque eu assinei um contrato como coordenador e vinha exercendo a minha função sempre com muito respeito àqueles que passaram, no início, o Jardine, e depois o Cuca. Então não havia razão nenhuma para que eu agisse de forma diferente. Quando foi me dada a oportunidade, ainda perguntei: ‘Vocês estão convictos disso?’ Porque eu acho que nessa hora é importante que você tenha tudo bem detalhado. E a resposta foi ‘Sim, temos convicção’. Então eu percebi que essa convicção já não era mais 100%, porque quando eu retorno do treinamento e entro na sala novamente, eu percebi um ar e uma vontade de se trocar o que havia sido feito. Me senti desprestigiado, mas ao mesmo tempo entendi e dei a oportunidade para que o São Paulo tomasse a decisão. Eu não posso esconder de ninguém que fiquei extremamente constrangido. Porque era uma situação muito diferente daquilo que eu já vivia no futebol. Eu tenho mais de 30 anos no futebol, e foi a primeira vez que me senti constrangido e desprestigiado. Volto a dizer, o que eu quis fazer, eu quis deixar que a diretoria do São Paulo tomasse a melhor decisão para o São Paulo, e não para o Mancini”.
Daniel Alves tem poder de mais no São Paulo?
“Eu acho que o Daniel Alves tem uma carreira belíssima, construiu isso através do esforço dele. Acho interessante, e é obvio que, quando um atleta desse peso está dentro de um clube, ele tem um peso natural, mas muito fruto do sucesso dele. As pessoas tendem a ouvir mais um atleta experiente e vencedor, que é o caso do Daniel, do que um atleta novo que está vindo da base. Eu não acredito que se os atletas que vieram da base esse ano tivessem ido na diretoria, teriam o mesmo peso de escolha. É obvio que o peso existe, a gente sabe disso, e eu não vou aqui dizer que está certo ou errado. Acho que você é inteligente quando escuta todas as áreas, interessante quando quer saber o que as outras pessoas estão pensando, porém, a decisão tem que ser sua, de quem comanda, dirige. Você não pode mostrar, de forma nenhuma, falta de comando. Você tem que mostrar que está ouvindo porque é inteligente, mas ao mesmo tempo tem que tomar suas decisões. Eu tomo as minhas decisões e, por isso, optei pela minha saída”.
Qual o seu relacionamento com Fernando Diniz? Você acha que ele fará um bom trabalho?
“O Fernando foi meu atleta. Nós, na época de atleta, jogamos muito contra, e depois foi meu atleta no Paulista de Jundiaí. Curiosamente, é um dos melhores amigos que tenho no futebol. Ele me chama até de padrinho, porque quando ele foi efetivado lá no Votorantim, quem deu aval para sua contratação fui eu. E até hoje me chama de padrinho. A gente tem um carinho enorme um pelo outro, então não existiria nenhum tipo de constrangimento de eu como coordenador e ele como técnico do São Paulo. Seria até um momento de felicidade. Então isso não está em questão. Porque quando eu vou para treinador e eles queriam que eu retornasse, aí há um constrangimento. Mas a minha relação com ele é maravilhosa. Eu espero e tenho certeza, que ele tem uma grande capacidade de desempenhar um grande trabalho no São Paulo. Vou estar torcendo por isso, até porque tenho um carinho enorme por todos no São Paulo, pelo clube, por tudo que aconteceu esse ano. Foram 9 meses de convivência sadia. Isso vou levar para o resto da minha vida. O que aconteceu foi uma intercorrência, um choque de ideias e opinião, só que quando um profissional pede demissão gera um barulho. Mas volto a dizer que me dou com todo mundo, não quero nenhum tipo de problema com isso. Estou dando essa entrevista para explicar o vazamento de um áudio porque acho que as pessoas têm o direito de saber o que o Mancini acha de tudo que aconteceu”.
Você continua no mercado como coordenador ou treinador? Alguém já entrou em contato?
“Ainda não. Tive, durante esse ano, 9 meses de coordenador, foi uma experiência muito válida. Porque eu aprendi muita coisa, por exemplo, a enxergar um pouco diferente aquilo que normalmente acontece no campo. Tentei ser para o Jardine e para o Cuca o elo o respaldo que eu sei que um treinador precisa ter. O que enche meus olhos é realmente voltar para o campo, ser técnico e poder desempenhar um papel lá dentro. Mas óbvio que o futebol está repleto de funções. Se amanhã surgir alguma coisa que faça brilhar meus olhos, eu posso pensar, mas nesse momento eu quero voltar a ser treinador”.
São Paulo, Mancini, Polêmica, Saída