Páscoa muito amarga. Diante de 88 mil pessoas no Cícero Pompeu de Toledo, perdemos as duas partidas mais importantes do ano até aqui, mas Rogerio Ceni tem um escudo poderoso e adaptável a qualquer contexto a cada coletiva que concede: "Temos 42 gols em 21 jogos, tivemos 60 e tantos % de posse de bola, cruzamos 30 e tantas bolas na área e finalizamos quase 20 vezes". É como um mantra repetido na expectativa de que não se façam análises mais profundas sobre nossa equipe e, quem sabe, convencer pelo cansaço quem ousar dizer que o São Paulo está negando fogo justamente quando mais dele se esperava. Sem resultadismos nem diagnósticos oportunistas, hein?, mas vamos a um apanhadão em tópicos sobre o que está rolando:
1) 42 gols. Muito bem! Mas vamos olhar isso de perto?
Obter uma média de 2 gols por partida somando o Paulistão, o início de Copa do Brasil e o primeiro jogo da Sul Americana é um feito que deve ser reconhecido como indício de bom desempenho ofensivo, mas não como prova irrefutável de regularidade. Como bem aponta um levantamento do @jogosspfc, se contabilizarmos apenas os cotejos contra times da Série A de 2017, o Tricolor marcou 9 vezes em 6 confrontos, com média de 1,5 gol por jogo. Se formos mais a fundo e dissecarmos esses seis duelos de maior grau de dificuldade, lembraremos que balançamos as redes 5 vezes contra a Ponte Preta, 3 contra o Santos e mais 1 contra o Corinthians. E, portanto, passamos metade destes jogos em branco: (0x3 Palmeiras), (0x2 Cruzeiro) e (0x2 Corinthians). Por outro lado, não terminamos nenhum dos 6 sem sofrer gols. O quadro muda de perspectiva quando o olhamos mais de perto, não?
2) Por favor, defina "retranca", Profe Rogerio
"Contra os times que ficam atrás, como foi o caso do Cruzeiro e do Corinthians... Me permita aqui, contra o Cruzeiro, quantas defesas o Renan fez? O que o Cruzeiro fez pra vencer a gente aqui no Morumbi? (...) Um gol contra e uma cabeçada muito boa do Hudson, numa falha nossa. (...) Hoje, além do Jadson, naquela primeira bola bonita que ele bate de fora da área, né, que o Renan faz uma boa defesa, me diga muito mais o que foi feito contra a gente? Né, não tem, não acho finalizações, procure, veja se você acha finalizações. Os times vêm retrancados e você tem que furar a retranca desses times que vêm dessa maneira jogar no Morumbi"
As palavras acima foram ditas pelo nosso treinador na coletiva pós-jogo de domingo. Rogerio pode ser um iniciante em sua nova função, mas é calejadíssimo no esporte e sempre se caracterizou - paradoxalmente, talvez - por seu conhecimento do jogo, sua lucidez e por certa falta de auto-crítica diante dos microfones. Por estar nesta indústria há tanto tempo, sabe melhor do que ninguém distinguir o que deve dizer publicamente da roupa suja que deve lavar internamente.
Com o desdém gritante de suas palavras, contudo, Ceni trouxe o peso desnecessário dos holofotes sobre si ao suscitar o questionamento: será que, na hora de encostar a cabeça no travesseiro, ele realmente acha que o time teve atuações minimamente satisfatórias? É mesmo possível que logo um sujeito tão apegado a estatísticas como Rogerio não soubesse que domingo o número de finalizações terminou empatado em 4 a 4? Estamos todos loucos em achar que aquela equipe que, a la cachorro loco, mordia e apavorava seus adversários em fevereiro em busca da retomada da bola ficou descansando em casa agora em abril, como se tivesse tomado uma vacina anti-rábica e um tiro de tranquilizante na jugular? É óbvio que ninguém esperava que o treinador citasse nomes, jogasse a toalha ou descascasse o elenco, jogando-o aos leões, mas uma visão tão desconectada do que pareceu evidente não deixa de saltar aos olhos.
Sua análise destoa frontalmente, aliás, do que qualquer um dos são-paulinos que foram ao estádio nestes dois duelos viu: a proposta de jogo do São Paulo foi lida, prevista e inegavelmente superada pelo antídoto bolado por Mano Menezes e Fábio Carille, que nos entregaram a posse de bola, mas controlaram as partidas por todos os 90 minutos, matando a velocidade de um São Paulo que pareceu se esquecer do que são o jogo apoiado, as triangulações rápidas e o bom e velho drible. Sem verticalidade, nos restou o chuveirinho inócuo. Ainda que ambos os duelos tivessem terminado sem gols, seria o caso de dizer na lata: o Tricolor não esteve nada bem.
Reduzir a perfeita organização defensiva dos dois rivais a uma reles "retranca" não soa apenas como discurso de mau perdedor, mas, pior, como uma preocupante demonstração de miopia até então inédita nas sempre boas entrevistas do comandante são-paulino. Nem Cruzeiro nem Corinthians (especialmente o segundo) abdicaram de jogar, e provavelmente se o tivessem feito, pagariam por isso. O que esperávamos? Que viessem ao Morumbi e estendessem um tapete vermelho para o São Paulo desfilar e atacar? Que trocassem golpes de guarda baixa no jogo de ida de mata-matas importantes? Por mais que a Raposa tenha um reserva chamado Lucas Silva, não vivemos no Mundo da Lua. Quem dera se o Tricolor demonstrasse a mesma capacidade de negar espaços ao adversário que seus últimos oponentes mostraram.
3) De que fonte o Mito bebe?
Desde seus tempos como dono da camisa 01 são-paulina, Rogerio jamais escondeu sua imensa admiração pelo trabalho de Juan Carlos Osorio, por quem foi dirigido no segundo semestre de 2015. Dentre as maiores virtudes do treinador colombiano estavam a inquietude, a capacidade para assumir erros e a coragem para testar alternativas que superassem as limitações do plantel, mesmo sob o risco de ganhar a pecha de "Professor Pardal" e outras alcunhas pouco carinhosas de setores populares da imprensa paulista, tão acostumada à cultura de resultados imediatos.
O fato é que o Profe, como era chamado, parecia ter o elenco nas mãos e conseguiu convencer os atletas a se dedicarem acima do normal em nome de seu modelo de jogo, baseado no termo que virou moda de lá pra cá:"Intensidá, intensidá!", costumava berrar o técnico nos treinos na Barra Funda, cobrando rápida compactação defensiva de seus comandados e formando cercos coordenados de pressão para retomar a bola. Com ela nos pés, amplitude era a palavra de ordem. Pontas deveriam pisar na linha lateral para permitir inversões rápidas de jogada, seguidas de apoio e criação de superioridade numérica pelos meio-campistas e laterais.
Não é que tudo tenha sempre corrido às mil maravilhas para Osorio no Morumbi: em meio a um aparentemente interminável desmanche, as derrotas (algumas delas acachapantes) vieram e, com elas, a contestação também. E, em vez de resumí-las ao acaso ou cobrar reforços medalhões em público, o técnico usou os microfones para assumir a total responsabilidade e garantir à torcida que buscaria alternativas. Inquieto e um pouco mais destemido que o normal, ele soube encontrar soluções criativas para o cobertor curto do elenco, como o uso de Carlinhos em diferentes posições do meio-campo e nas duas pontas, Breno como um pivote, Ganso como falso nove e Lyanco na lateral, variando o esquema, mas mantendo a proposta agressiva e o frescor de um elenco que claramente rendia além do esperado.
E aqui cabe uma reflexão: não seria esta a oportunidade de Rogerio mostrar que absorveu a principal virtude do técnico que tanto afirma admirar? Com isso quero dizer: adaptar o esquema às peças que tem em mãos, sem medo de largar velhas convicções. Há uma ponta de faca no Cícero Pompeu de Toledo, e cabe a nós pararmos de esmurrá-la.
4) Individualidades e momento: hora de analisá-los pelo bem do time
Aqui no blog, bato na tecla de que os problemas do São Paulo não residem nas individualidades A, B ou C e que iniciar nova caça às bruxas seria repetir o erro crasso que nos caracteriza desde 2009. Porém, ainda que haja diversos ajustes coletivos a serem feitos, sobretudo nos momentos da transição defensiva e ofensiva, com quase um trimestre de futebol jogado, já é possível tecer comentários sobre performances individuais e seus gráficos ascendentes ou descendentes de desempenho sem grande medo de errar.
Cícero, por exemplo, é um caso curioso. Quem o vê in loco do estádio logo percebe três coisas: 1) ele está sempre trotando, é um jogador que nunca dá piques; 2) trata-se de um exímio passador. Contudo, a esmagadora maioria de seus passes são laterais ou para trás, muito raramente de primeira e nunca seguidos de desmarques; 3) ele não costuma acompanhar de perto as jogadas, se postando sempre como uma opção conservadora de passe, recuado na linha do meio-campo, e distante demais para o caso de um rebote. Em resumo, o camisa 8 não dá fluência ao jogo da equipe e é duro exigir que, à beira dos 33 anos, atuando duas vezes por semana, consiga oferecer a intensidade e imposição física de sufocar adversários que o esquema de Rogerio exigem em alto nível. A bem da verdade, nem mesmo em sua primeira passagem, Cícero era este tipo de jogador - o que não quer dizer que não tenha qualidades úteis. É salutar, contudo, que questionemos: por que razão o Cícero é um titular quase intocável desta equipe?
Outro exemplo de atleta que precisa ser observado é o de Luiz Araújo. Provavelmente o melhor jogador do Paulistão em fevereiro, atualmente o garoto de Cotia em nada lembra aquele furacão que fazia desarmes em série, colaborava uma enormidade para a pressão na retomada de bola e disparava em velocidade, bagunçando defesas pelo interior. Sem confiança, sem punch, sem drible, não dá para esconder que hoje o talentoso operário Araújo vive má fase. E isso não pode ser o fim do mundo, especialmente em se tratando de um rapaz de 19 anos com todo um futuro pela frente, que precisa saber da importância de ser um dedicado trabalhador no meio-campo. Cabe a Rogerio, no entanto, quebrar a cabeça em busca de alternativas caso diagnostique que não é possível fazer o camisa 31 retomar imediatamente seu melhor nível.
Claro que, sentado aqui neste computador ao som de Katinguelê, tudo parece mais fácil do que a prática - e estamos falando de um clube em ebulição política com o peso de evitar duas pesadas eliminações em curtíssimo espaço de tempo - mas o principal é tentar fazer com que todos no elenco estejam mais ou menos no mesmo grau de prontidão para assumir a titularidade. Isso é utópico, mas é o propósito de um rodízio bem aplicado (que inclui não apenas jogadores, mas sistemas táticos para diferentes cenários): reduzir a dependência de uma ou outra peça, não ser refém de um esquema e fazer com que o máximo de jogadores sejam úteis. Se é verdade que Cícero, Araújo, Junior Tavares e os agora lesionados Buffarini e Wellington Nem estão devendo, também deveríamos cobrar que nomes como Shaylon, Wesley, Neílton, Chavez e (novamente) João Schmidt estejam mais diretamente envolvidos no primeiro time.
5) A ruptura e o reparo
Pelas entrevistas em que faz questão de reforçar que "vamos trabalhar da mesma maneira que estamos trabalhando desde o dia 4 de janeiro, quando nos apresentamos aqui" e que "o time vai jogar da mesma maneira como vem jogando, como ganhou X jogos, perdeu Y, empatou Z, sempre jogando à frente, sempre tentando o gol e é isso que nós vamos fazer" (e tome números, 102% de posse de bola, 100 cruzamentos, 89 finalizações), Rogerio deixa claro que, neste momento, é refratário a mudanças e que acredita sinceramente que a equipe se houve bem frente aos dois últimos rivais. Para ele, o time, mesmo bagunçado, paupérrimo na criação e exposto atrás, foi "ofensivo" nas últimas duas partidas.
O que se cobra dele não é uma ruptura total com a ideia que propõe. Ninguém pede a Ceni para que o seu São Paulo passe, da noite para o dia, a ser a imagem e semelhança do Corinthians de Carille e abra mão de propor o jogo. Só o que se pede é auto-crítica do nosso maior cérebro para enxergar que esta obra precisa urgentemente de ajustes, não apenas com a melhor utilização de outras peças do elenco, mas de evolução - para pararmos de cometer os mesmos erros todos os jogos. Não é normal que o São Paulo tenha uma das defesas mais vazadas do Paulistão e é imperativo que seu treinador detecte os padrões que teimam em se repetir. Contra-golpes frente a uma defesa que não sabe se fica ou se avança, meio-campistas interiores e pontas marcando com os olhos, erros na marcação por zona da bola aérea... Para reparar isso, não é preciso dar reset e demolir o castelo de areia construído desde 4 de janeiro. É preciso sabedoria e treino, e pelo menos um desses artigos anda em falta nas prateleiras da Barra Funda.
6) Torcida única?
Nas arquibancadas do Morumbi, tanto na quinta quanto especialmente domingo, pôde-se ouvir vaias e xingamentos incessantes a Wellington Nem desde o anúncio de seu nome na escalação. Com um minuto (isso mesmo) de partida contra os corintianos, o camisa 21 já recebia enxurradas de apupos a cada interação que tinha com a bola. Que a fase não é boa, tanto nós quanto os médicos do clube já sabemos; mas lidar com uma parte da torcida que faz de tudo para que a passagem do atacante pelo São Paulo seja um fracasso me parece o caminho mais difícil e contra-producente. Não estamos falando de um jogador omisso, desinteressado ou que não demonstre ciência das suas obrigações e erros. Wellington Nem merece consideração e um voto de confiança não por si, mas pelo bem da equipe. E eu que achei que domingo era um jogo de torcida única, me enganei...

6) Rodrigo Caio, Maicon e nós
Não esperem de mim qualquer discurso moralista sobre a atitude de Rodrigo Caio, dizendo que "o jogador tem que dar exemplo para as crianças", "ele não merece viver num país banhado pela corrupção" e outros ismos. Seu ato foi singelo, sincero e admirável, sim, e em qualquer cenário teria a defesa irrestrita deste blog. Antes de apontar o dedo para Jô, Gabriel, Keno, Prass, Maicon, Zé Roberto, Edmundo ou Paulo Nunes, contudo, acho importante não perder de vista o fato de vivermos numa sociedade profundamente competitiva (a níveis doentios), em que somos adestrados desde o berço a tirar vantagem de nossos pares sempre que possível, seja pelo descompromisso ético da publicidade, pelo tom laudatório e acrítico das manchetes de revistas, jornais e portais, pelo empresariado que dirige o país e é exaltado por estas mesmas headlines da mídia, pelos exemplos de culturas e países que somos exortados a admirar ou pelos anti-exemplos - aqueles que somos convenientemente forçados a ignorar, como sinônimos de ruína civilizatória. Nossas próprias noções de fracasso são distorcidas pelo ideário binário dos winners e losers na vida, e talvez por esta razão nunca os divãs estiveram tão cheios, assim como a literatura de auto-ajuda venda horrores.
Jogadores de futebol são peões de uma indústria insalubre e bilhardária, sujeitos a pressões que muitos de nós jamais experienciaremos e - se formos analisar em pormenores - em meio a um curioso código de ética a que respeitam, têm automatizada a ideia de que cada mínima falta cavada pode ser um feito a se pôr no currículo, se não seu, dos seus colegas. Mesmo um esportista acima de qualquer suspeita como Nilton Santos é lembrado saudosamente por uma manobra escusa em um jogo contra a Espanha na Copa de 62. Luizão se orgulha até hoje do pênalti safado que arranjou na estreia contra a Turquia em 2002 e isso é socialmente incentivado e celebrado. Quando há algo em jogo, da honra ao pão, os valores da esmagadora maioria são esses que nosso capitão Maicon, aquele que "prefere ver a mãe do outro chorando a ver a sua", expressou e, logo, não se deve agir em busca de reciprocidade.
Que o nobre Rodrigo Caio, por sua vez, não seja feito refém de um pseudo-bom mocismo a cada vez que, porventura, cometa qualquer deslize no meio da fúria de um jogo. Não tenhamos a ingenuidade nem o oportunismo cruel e incompreensivo de achar que tudo que acontece entre as quatro linhas é premeditado com frieza maquiavélica nem que o futebol não é um jogo repleto de áreas cinzentas, lances passíveis de dúzias de interpretações distintas e influências externas. Os jogadores seguem impulsos regidos ao sabor de uma força invisível chamada "sociedade", com seu próprio livro de regras individualistas e mesquinhas - e isto é óbvio. É muito bom saber que, de vez em quando, há exceções, por mais que Maicon desaprove.
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