Em que ano estamos? 2017? 2015? 2012? 2010?
Por que o São Paulo, de novo, não se mostrou à altura de disputar um clássico decisivo, e perdeu para o Corinthians por 2 a 0.
A resposta não é difícil tampouco simples de explicar. Para entender as razões da fragilidade, é preciso caminhar em duas vias: a dos últimos 90 minutos e a dos últimos nove anos.
Comecemos pela primeira. Foi decantado o duelo ideológico entre a posse de bola com agressividade do São Paulo contra a eficiência do sistema defensivo do Corinthians. Rogério Ceni pensou bem ao alterar o sistema para o 4-2-3-1, com Thiago Mendes ao lado de Jucilei, Cueva centralizado e dois jogadores de profundidade – Wellington Nem e Luiz Araúajo – para alargar a defesa adversária. É sempre um bom remédio para tentar encontrar espaços.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2017/u/E/PAp35HSjO0f6dEBGbyfQ/campinho-50-.png)
Formação inicial. Entre parênteses, como ficou após lesão de Nem e entrada de Cícero (Foto: Arte: GloboEsporte.com)
Nos 18 minutos em que essa formação resistiu, o Tricolor insistiu em bater no muro. Vertical demais, faltou dosar, controlar, valorizar mesmo a bola com paciência até encontrar uma brecha que não fosse na marra.
Muito cedo, Ceni teve azar ao perder Wellington Nem, e a escolha do substituto não teve efeito. Thiago Mendes foi para a ponta direita e Cícero entrou para atuar ao lado de Jucilei. Só que o meia jogou mal novamente, sem pegada no setor ou mobilidade para proporcionar à equipe o jogo apoiado, ou seja, opções de trocas de passes.
Perdeu-se a boa combinação entre Jucilei, em ótima noite, como tem sido habitual, e Thiago Mendes. O meio-campo passou a dar muito espaço ao Corinthians. Sem pegada, sem determinação. Jogar com a bola é lindo, mas os grandes times do mundo que se destacam por um belo futebol só conseguem isso com absoluta entrega quando a posse é do rival.
O segundo gol alvinegro, por exemplo, nasce de um contra-ataque... do São Paulo. Apressado, Junior Tavares, que também jogou muito mal, erra passe na entrada da área. A resposta nem sequer foi rápida. O Corinthians trocou 11 passes, de um lado para o outro, pra frente e pra trás, até Rodriguinho finalizar. E quando ele finalizou, repare no vídeo abaixo, só os quatro defensores tricolores – Araruna, Maicon, Rodrigo Caio e Junior Tavares – estão atrás da linha da bola. Houve tempo de sobra para a recomposição total, mas ela não ocorreu.
No intervalo, Ceni trocou Luiz Araújo por Gilberto e montou uma espécie de losango no meio, com Cueva atrás dos centroavantes. A saída de Jadson, lesionado, deixou a bola com o São Paulo quase que todo o tempo, e até houve chances – Maicon, Gilberto e Pratto podiam ter marcado –, mas os erros de passes, cruzamentos e finalizações foram incontáveis.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2017/4/t/40WrLmQT2WhOUtNbMmiA/campinho-51-.png)
Time do segundo tempo, com dois centroavantes (Foto: Arte: GloboEsporte.com)
A difícil situação em que se encontra o São Paulo, tendo que vencer o Corinthians por dois gols de diferença em Itaquera, onde jamais ganhou, para levar a decisão da vaga na final para os pênaltis, é um quebra-cabeça de muitas peças. Algumas delas:
1) Um dos trunfos ao longo da primeira fase foi o lado esquerdo formado por dois jovens: Junior Tavares e Luiz Araújo, Ambos estão mal. É natural que eles oscilem.
2) Cueva, o melhor do time, esteve totalmente fora de ritmo depois de sete jogos parado. Normal também.
3) Já falamos sobre isso, mas o São Paulo-2017 pegou a versão 2016, fez bolinhas de papel e jogou no lixo. É totalmente diferente, com uma proposta de ser o agente que dá as cartas em campo, mas que, com um calendário sufocante e sem tempo para aperfeiçoar-se diante dos antídotos criados pelos adversários, tem sucumbido diante das estratégias rivais. Também não é nada surpreendente.
Mas, então, é tudo normal? Não... É anormal e inaceitável que isso se repita há tanto tempo. São nove anos sem vencer um clássico em mata-mata. 14 jogos.
Na última quinta-feira, logo depois da derrota para o Cruzeiro, dois são-paulinos dialogavam:
– O São Paulo é um time em formação – ponderou um.
– O São Paulo é sempre um time em formação – rebateu outro.
Ambos estão certos. Nesse enorme e indigesto jejum, o time teve 13 trocas de técnicos, centenas de jogadores e mil decretos vindos de todas as partes – torcida, imprensa e diretoria – de que Fulano não serve, Beltrano tem que sair, Sicrano faz mal ao elenco, etc. Um processo contínuo de destruição que jamais conseguiu ver uma nova construção se consolidar.
Em 2017, o São Paulo contratou um novato para técnico com um auxiliar inglês. Por que? Porque acreditou em suas ideias, muito mais do que em títulos imediatos. É no desenvolvimento dessas ideias que clube e comissão técnica precisam trabalhar incessantemente. Até porque elas são boas. Tão boas quanto trabalhosas.