O São Paulo Futebol Clube sempre foi uma entidade de vanguarda na sociedade brasileira, dentro e fora dos campos. Desde o primeiro ano de existência do time, entre os atletas haviam jogadores de várias etnias e nacionalidades, por exemplo.
Mesmo em uma cultura fortemente conservadora como a da capital paulista dos anos 30, o Tricolor era um clube aberto, que não fazia distinção de cor ou gênero. A sócia plena nº 362, do Registro de Quadro Social do São Paulo FC de 1930, Elisa Wright, é prova desse fato. Ela foi a primeira mulher associada ao clube.
No ambiente esportivo as mulheres não somente participavam, como na verdade em muitas equipes eram a principal força do Tricolor em competições. As primeiras modalidades em que tomaram parte na época em que o clube se situava no Canindé foram o atletismo (Hilda Muths, Frieda Brandt, Edith Neu, Nadija Irene, Carlota Keiner, dentre outras), o tênis de mesa (Elza Talamo) e o basquete (Lourdes Ferreira, Gertrudes Morg, Martha Bahde, Alice Torre, Diolete Almeida, Eulália Schiavon, etc.), entre os anos de 1942 e 1943.
Os resultados não demoraram a surgir. O time de basquete de Lais, Helena, Vanda, Elisa, Ruth e Dady sagrou-se campeão paulista (na época, o torneio era disputado somente entre equipes da Grande São Paulo) em 1944. E as mulheres do atletismo conquistaram um tricampeonato estadual (1952, 1956 e 1966) para o Tricolor, fora as vitórias em inúmeras etapas e provas específicas ao longo do tempo.
Mas as grandes conquistas vieram mesmo das histórias individuais de cada são-paulina. As trajetórias mais marcantes, que ajudaram também a desenvolver o esporte no Brasil, são de Melânia Luz e Wanda dos Santos, nos anos 40 e 50.
FORÇA NO ATLETISMO

Melânia Luz foi a primeira brasileira negra a disputar os Jogos Olímpicos. Em 1948, a atleta representou o Tricolor em Londres na disputa dos 200 metros rasos e no revezamento 4 x 100 metros. Não obteve medalha, mas o pioneirismo dela foi um marco para centenas de outras atletas, entre elas, Wanda dos Santos.
Wanda conseguiu a proeza de defender o país em duas Olimpíadas. A atleta são-paulina foi à Helsinque, em 1952 e a Roma, em 1960, disputando provas de 80 metros com barreira e salto em distância. Na primeira participação, na Finlândia, por um décimo de segundo não conseguiu vaga para disputar a medalha na final. Na segunda, foi a única mulher brasileira nos Jogos.
Apesar da grande tradição do Tricolor no atletismo, os são-paulinos só se viram novamente representados por uma atleta do clube na maior competição esportiva do mundo em 2012, com Maurren Maggi, quatro anos depois dela se tornar a primeira medalhista de ouro olímpico do Brasil em competições individuais.
Maurren, que se tornara atleta do São Paulo em 2010, venceu vários prêmios pelo clube, como o Troféu Brasil de Atletismo, o GP Internacional, o Sul-Americano, todos em 2011 e várias etapas do GP Brasil entre 2011 e 2012. A conquista mais importante, porém, foi a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2011, em Guadalajara, no México.
FORÇA NO FUTEBOL

Agora, quando o assunto é futebol, carro forte desta entidade, a luta das mulheres pelo desenvolvimento da categoria também encontrou abrigo no clube desde os primórdios. Thomaz Mazzoni, em a História do Futebol do Brasil, de 1950, relata que em 17 de maio de 1940 o Tricolor foi pioneiro ao levar ao público o jogo entre mulheres, como preliminar do time profissional masculino (São Paulo x Flamengo), no Pacaembu.
Fábio Franzini, no texto “Futebol é coisa para macho? – Pequeno esboço para uma história das mulheres no país do futebol”, relata, entretanto, como foi vista essa ação recortando uma passagem do jornal Folha da Manhã, dizendo que o público viveu "momentos dos mais agradáveis, sobretudo humorísticos, pois, se as frágeis jogadoras não exibiram técnica de futebol, padrão de jogo, etc, agradaram em cheio, na maioria das vezes, pelas próprias falhas, que eram recebidas com gostosas gargalhadas pela assistência".
Como se vê, ainda haveria um longo caminho a percorrer... E que em nada foi encurtado pelas autoridades. Pelo Decreto-Lei 3199 de 1941, a prática do futebol feminino foi proíbida no Brasil. Somente quatro décadas depois é que o esporte viu serem realizadas as primeiras competições femininas razoavelmente organizadas e, como não poderia deixar de ser, o São Paulo foi um dos primeiros times a montar um elenco para disputá-las.
Na primeira Taça São Paulo, em 1983, o time feminino do Tricolor não fez feio. Após goleadas de 18 a 0 sobre o EC Nely e 17 a 0 sobre o EC Panorama, o São Paulo perdeu para o EC Coríntians do Parque, na semifinal disputada em Pirituba, conquistando o terceiro lugar, depois de vencer o Café FF por 2 a 1. Nada mal para a aventura inicial das são-paulinas.
A Era de Ouro da modalidade no Clube do Morumbi, contudo, se deu entre 1997 e 2000, quando o São Paulo formou uma verdadeira seleção – realmente era a base da Seleção Brasileira do período. Formiga, Kátia Cilene e Sissi, dentre outras, jogavam bonito, atropelavam as adversárias e conquistavam inúmeros títulos para o Tricolor. O auge: a final do Brasileiro de 1997, em que as tricolores Maravilha, Marisa, Andréia Camargo, Tânia Maranhão, Elsilene, Formiga, Cidinha, Sissi, Suzana, Karin (Grazielle) e Kátia Cilene bateram a Lusa Sant'Anna por 4 a 0.
A camisa dez do time, inclusive, tinha um grito de torcida muito especial, em lembrança a qualidade do futebol dela: “Hey, Muricy, coloca a Sissi!”.

AS PRINCIPAIS CONQUISTAS FEMININAS NO TRICOLOR
Futebol
Campeonato Brasileiro: 1997.
Campeonato Paulista: 1997, 1999.
Torneio da Primavera Rio-São Paulo: 1997.
Torneio Início do Campeonato Paulista: 1997.
Torneio de Campo Grande, Mato Grosso do Sul: 1997.
Torneio Dr. Eduardo José Farah: 1999.
Taça Holambra: 1997.
Torneio Stella Barros, sub-15: 2015
Atletismo
Paulista: 1952, 1956, 1966.
Paulista "Qualquer Classe": 1954.
Basquete
Campeonato Brasileiro: 2002.
Campeonato Paulista (Grande São Paulo): 1944.
Boxe
Jogos Abertos do Interior por São Bernardo: 2007
Ginástica Aeróbica
Campeonato Brasileiro: 2008.
Campeonato Brasileiro, Excelência: 2007 (por 2006)
Handebol
Liga Nacional de Handebol: 2005.
Campeonato Paulista: 2004, 2005.
Hóquei
Campeonato Brasileiro em linha: 2001 (1º), 2001 (2º)
Voleibol
Campeonato Metropolitano: 1974, 1978, 1993.

Dentre todas essas conquistas, certamente as mais significativas foram, além do Brasileiro de futebol, de 1997, os títulos nacionais no basquete e no handebol, obtidas em 2002 e 2005. Na bola ao cesto, o time de Kátia, Palmira, Pontello, Iris, Ana Lúcia, Tatiana, Maria, Juliana, Sandrinha, Tayara, Fabi, Kelly Cristina, Erika e a experiente Janeth Arcain, conquistou o título frente a Unimed/Americana com três vitórias nos três jogos decisivos (79x86, 83/73, 88x72, os dois últimos fora de casa).
Já as mulheres do handebol ergueram a taça após perderem a primeira partida contra a poderosa Metodista, futura eneacampeã nacional, por 23 a 20 no ABC. No jogo de volta, em Guarulhos, as são-paulinas Meg, Chicória, Millene, Deonize, Kátia, Sandrinha, Aninha, além de Edna, Rosana Baiana e Pará. venceram por 27 a 22 e faturaram o importante título.
AS MULHERES SÃO-PAULINAS NOS JOGOS OLÍMPICOS
Até hoje, 15 são-paulinas nos honraram representando o Tricolor em Olimpíadas. Confira um pouco da história de cada uma, logo abaixo:
MELNIA

Melânia Luz
São Paulo, 01 de junho de 1928
Corredora de provas de velocidade, também praticava o salto em altura. Melânia foi campeã sul-americana no revezamento 4x100 metros e medalhista de prata nos 200 metros rasos em 1949. Dois anos antes, na mesma competição, foi a vice-campeã dos 200 metros, do revezamento 4x100 metros e bronze nos 100 metros rasos. Foi uma verdadeira atleta toda a vida, participando de torneios seniores até depois dos 70 anos.
Representou o Tricolor nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Foi a primeira atleta brasileira negra a participar de uma olimpíada.
WANDA DOS SANTOS

Wanda dos Santos
São Paulo, 27 de dezembro de 1931
Verdadeira atleta, no sentido amplo da palavra, Wanda dos Santos praticou de tudo um pouco – voleibol, handebol e basquetebol (onde jogou no Ypiranga) – antes de se aventurar no atletismo e obter grandes resultados, que a levaram ao cenário internacional. Antes dos Jogos de 1952, Wanda já havia conquistado a medalha de bronze no salto em distância no Pan-Americano de Buenos Aires, em 1951.
Em Helsinque, Wanda teve uma participação para lá de honrosa. Com a bagagem de ter disputado também os Jogos Pan-Americanos de 1955, no México (onde obteve a medalha de bronze) e de 1959, em Chicago (medalhista de prata!), Wanda dos Santos retornou em 1960 como a única mulher da delegação brasileira. Na disputa dos 80 metros com barreiras, não conseguiu passar da primeira eliminatória. Mas o simples fato de ter disputado duas Olimpíadas já a torna uma das gigantes da história do atletismo brasileiro.
Hoje, Wanda dos Santos é formada em Educação Física, professora e técnica de atletismo e mesmo com 85 anos ainda disputa competições de categoria máster.








DANIELLE ZANGRANDO

Danielle Zangrando
Santos (SP), 25 de julho de 1979
Curiosamente, Danielle teve o mesmo professor de Leandro Guilheiro no começo das atividades dela no judô (Paulo Duarte), que, aliás, foram bem precoces – com 4 anos de idade. Nesse início, treinava lutando contra meninos, visto que não haviam muitas garotas no esporte. Por esse motivo, por não encontrar adversárias na mesma faixa etária e por não poder competir em categorias mais avançadas, chegou a pensar em desistir.
Danielle seguiu em frente. Com 15 anos foi escolhida para ser titular da seleção brasileira adulta e foi vice-campeã sul-americana. Em 1995, passou a competir pela Associação de Judô Rogério Sampaio e conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata e no Mundial de Chiba, no Japão. Para completar, ainda disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta, chegando até a semifinal: tudo menos de 16 anos de idade.
Foi ainda medalhista de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1999 antes de, em 2004, competir nos Jogos Olímpicos de Atenas pelo Tricolor. Encerrou a carreira em 2008, após faturar a medalha de ouro no Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007.
É formada em jornalismo e atualmente trabalha para a Rede Globo de Santos, onde mora.
LEILA SOBRAL

Leila de Souza Sobral
São Paulo (SP), 22 de novembro de 1974
Irmã da jogadora Marta Sobral, Leila começou no basquete por clara influência familiar logo aos seis anos de idade. Treinava no CA Pirelli, de Santo André, e em pouco tempo passou por todas as seleções brasileiras de categorias de base.
Com 19 anos, fez parte do time do Brasil campeão mundial em 1994. Dois anos depois, foi medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Jogou no Washington Mystics e no Panathinaikos da Grécia até se contundir gravemente durante o Pan-Americano de Winnipeg, em 1999. Ficou fora das quadras por quase quatro anos, se reabilitando.
Voltou a jogar em 2003, no Santo André. No ano seguinte já defendia as cores do São Paulo FC/AA Guaru. Regressou a Seleção Brasileira para disputar as Olimpíadas de 2004 e depois da participação mudou-se para Europa onde defendeu o Celta de Vigo.
Encerrou a carreira esportiva em meados de 2010 e hoje é dona de um buffet infantil e administra um projeto social para crianças.
PARÁ

Aline Waleska Lopes Rosas
João Pessoa (PB), 28 de junho de 1979
Pará, como foi conhecida Alina no meio esportivo, é um caso raro de adoção de um esporte no Brasil mediante bolsa de estudos. Graças a isso, Aline mudou-se para São Paulo e jogou handebol pela AA Metodista e pelo São Paulo FC/AA Guarulhos. Posteriormente ainda defendeu a equipe do AD Blumenau.
Foi bicampeã pan-americana, em 2003 (enquanto defendia o Tricolor) e em 2007. Também foi a dois Jogos Olímpicos: Em Atenas, 2004, como atleta do São Paulo, e em Pequim, 2008. Por fim, esteve com o Brasil em quatro campeonatos mundiais (1997, 1999, 2001 e 2003).
Pelo Tricolor, foi campeã da Liga Nacional, em 2005, e bicampeã estadual, em 2004 e 2005.
Atualmente é técnica na modalidade em Itajaí, Santa Catarina.
LUCILA

Lucila Vianna da Silva
Nova Iguaçu (RJ), 7 de março de 1976
Por influência das irmãs mais velhas, que jogavam handebol, Lucila também entrou no esporte praticando-o no Colégio Antônio da Silva, em Morro Agudo, na cidade em que nasceu. Defendeu equipes como ADC Santo André e Jundiaí.
Como Pará, foi campeã da Liga Nacional, em 2005, e bicampeã estadual, em 2004 e 2005, pelo Tricolor e esteve nos Jogos Olímpicos de 2004, em que foi a capitão do time brasileiro. Com a seleção, Lucila foi campeã em três Pan-Americanos (1999, 2003 e 2007) e disputou também as Olimpíadas de 2000 e 2008.
MAURREN MAGGI

Maurren Higa Maggi
São Carlos (SP), 25 de junho de 1976
Maurren deixou a primeira marca na história do esporte nos Jogos Pan-Americanos de 1999, em Winnipeg (Canadá), quando venceu a prova do salto em distância e faturou a prata nos 100 metros rasos. Em seguida participou dos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000. Depois três anos de ausência por uma falha em controle de medicamentos que lhe rendeu punição por doping, Maurren deu a volta por cima e decidiu retornar às pistas.
A perseverança foi recompensada, e a atleta tornou-se, em 2008, a primeira mulher sul-americana a conquistar uma medalha de ouro olímpica individual. Tornou-se atleta do Tricolor em 2010 e em 2012 representou o clube nos Jogos Olímpicos de Londres.










