No caminho para o Cícero Pompeu de Toledo, de repente o céu começou a ganhar aquela mesma cor dos muros da 23 de maio e das fardas da PM, um cinza chumbo que anunciava o pé d'água que cairia. Mau presságio? Que nada. Encontramos alguns amigos na banca de revistas em frente ao estádio, como de praxe, esperamos a chegada do ônibus do time e entramos na fila debaixo da mais paulistana das chuvas. O que era essa meia dúzia de pingos de verão para quem sobreviveu a três anos de Jean e Júlio Santos formando dupla de zaga?
Já acomodado na arquibancada azul, pensei com meus botões que Rogério não se sentava naquele banco de reservas do Morumbi desde que Zetti usava a camisa 1 são paulina, 20 anos atrás. Seu debute como treinador, assim como a recepção aos aguardadíssimos novos reforços Pratto e Jucilei, foram motivos mais que especiais para que 51 mil pessoas arrumassem um tempo entre a macarronada dominical e os reclames do plim-plim e comparecessem ao estádio para empurrar um time em formação que, para azar da Ponte Preta, se encheu de confiança.
Ceni mandou a campo o seu já habitual 4-3-3 com quatro crias de Cotia entre os titulares - e mais duas, Araruna e Shaylon, entrando no segundo tempo. Com o início do jogo, a chuva cessou e a temperatura bem mais amena do que antes permitiu que o São Paulo jogasse com alguma intensidade, como tanto apregoa o treinador. Nem mesmo o balde d'água fria que foi o belo gol de Matheus Jesus para a Macaca, aos 21 minutos, em erro de Thiago Mendes e falha de Sidão, foi capaz de frear o ímpeto dos anfitriões são paulinos, que, embora tivessem dificuldades para criar oportunidades cristalinas de gol, dominaram o jogo do início ao fim sem grandes sobressaltos.
A virada foi natural, a partir de quando Cueva decidiu dar as caras infiltrando-se entre as linhas do precavido 4-1-4-1 pontepretano: com um gol de rebote e uma bela assistência para Gilberto, o maestro peruano comandou a reação tricolor num primeiro tempo morno e me fez pensar que a moça do caixa da padaria pudesse ter acertado sua previsão. Em vantagem (ainda que mínima) no placar e com um jogo duro frente ao Santos na Vila Belmiro quarta-feira, esperava-se que o Tricolor tirasse o pé do acelerador no segundo tempo e administrasse o score de 2x1 construído.
Ledo engano. Com atuações de gala do oportunista Gilberto, do atrevido Junior Tavares e do imparável Luiz Araújo na segunda metade do confronto, o São Paulo jantou a Ponte Preta com farofa de maneira surpreendentemente rápida, o que ainda permitiu a Rogério fazer alguns testes. Com 4x1 no placar, aos 15 minutos, Ceni colocou Diós Lugano em campo, deixando a equipe no 3-4-2-1, um esquema que deixaria Jorge Sampaoli a sorrir. A partir dali, a tarefa do time foi fazer o tempo correr com a pelota nos pés. Os mais de 70% de posse de bola do São Paulo e os 5x2 tranquilos não me deixam mentir.
Mais importante que o placar largo, porém, foi a forma não-acidental com que ele se construiu. Em vez de se acomodar com a vantagem, o time teve ímpeto e agressividade, e parecia jogar em comunhão com a vontade das arquibancadas. Assim como o revés diante do bom Audax não justificava tempestades em copo d'água domingo passado, é sensato dizer que a goleada dessa semana não deve omitir que essa equipe ainda tem muito a melhorar. É a repetição, somada ao pouco tempo de treinamentos que a agenda permite, que darão forma a um escrete que gerou aproximadamente 51 mil sorrisos ontem no Morumbi.

A essa altura, já começam a ficar claras algumas características que pautam o trabalho do novo treinador e, em alguns casos, o diferem de seus antecessores de 2016: 1) o rodízio no elenco; 2) a grande confiança em peças da base; 3) a importância a algumas inusitadas jogadas de bola parada ofensiva; 4) a exigência de que os zagueiros saiam jogando sem chutões, com passes verticais que quebrem a primeira linha de marcação; 5) a instrução para que os laterais "pisem na linha lateral" e ofereçam amplitude às jogadas; 6) os pontas livres para flutuarem pelo meio, deixando as alas para os laterais; 7) a importância do jogo de posição para sair da marcação pressão adversária na saída de bola; 8) as mudanças de posição de peças durante o jogo (por ex: Araújo foi ponta-esquerda no 1T e ponta-direita no 2T, Gilberto atuou pelo setor direito na primeira etapa e pelo centro na segunda); 9) a utilização mais frequente do goleiro como jogador de linha; e 10) o foco na retomada rápida da bola, como o Liverpool de Jürgen Klopp (em que Michael Beale treinava o time sub-23 e Rogério passou por estágio) é mestre em fazer.
Amanhã, ainda sem Pratto (não regularizado) e Jucilei (longe da forma física ideal), o Tricolor desce a serra e visita Santos. O Sansão põe frente a frente os dois melhores ataques da competição, seus dois artilheiros renegados - Gilberto e Rodrigão, ambos com 3 gols - e dará ao franco atirador São Paulo um belo teste: encarar um fortíssimo adversário que não perde em casa pelo Paulistão há 5 anos e 10 meses. Devagar e sempre, vamos observando curiosos a evolução do novo São Paulo. Domingo tivemos um excelente tira-gosto do que pode estar por vir: depois da tempestade, a bonança.