Exemplifico: temos um novo técnico, por acaso ídolo máximo e recordista de títulos do clube, o que animou muito a esmagadora maioria da torcida. “Mas”, alertaram com razão os prudentes, “Rogério Ceni é um novato na profissão”. Aqueles que decretam, impassíveis, que “o São Paulo não é lugar para iniciantes” deixam no ar certa falta de memória sobre a exceção que o clube - que já entregou o time ao comando dos inexperientes Poy, Dario Pereyra e Rojas - costuma abrir a seus ex-jogadores.
Logicamente, pela dimensão da figura, todos os holofotes se voltam para o debutante. A cultura resultadista, que tantas cabeças degola no nosso futebol, não tardará a se refletir no discurso camaleônico que paira pelo ar, aguardando o momento oportuno de dar o bote: previsivelmente, se naufragar, Ceni terá sido “uma loucura irresponsável” de Leco, e não faltam iconoclastas que ficarão extremamente satisfeitos com isso. Por outro lado, se triunfar, terá sido “um sopro de frescor” no cenário viciado de treinadores-medalhões do Brasil, uma “aposta visionária” do gestor. O parâmetro para decretar o que é triunfo e o que é fracasso no futebol brasileiro, porém, é o que me inspira cautela, pois o exagero e a descontextualização sempre se fazem notar, para o bem e para o mal.
Após um 2016 atribulado em todos os aspectos, um afã feroz por reformulação total naturalmente recaiu sobre o Morumbi. Como bem expressou ao vivo um inebriado Fernando Vanucci após o fracasso da Seleção na Copa de 2006, a vibe que tomou conta de uma parcela da desiludida massa tricolor era de “vamos colocar o castelo de areia abaixo” e destruir tudo. Mas, como prova a história, nem sempre queimar tudo e todos e recomeçar da estaca zero é uma opção sensata para quem está por baixo. A bem da verdade, quase nunca é.
Pessimistas dizem que, para o ano que se inicia, não houve grandes mudanças no elenco, que em tese só ganhou modestos 4 reforços: Sidão, Cícero, Wellington Nem e Neílton. Contudo, um olhar mais atento mostra que houve sim uma reformulação, com o acréscimo de 3 nomes inativos em 2016 (Breno, Douglas e Wellington) e mais 5 promovidos da base (Lucas Perri, Foguete, Junior Tavares, Araruna e Shaylon), além de outros 5 que chegaram durante o segundo semestre do ano passado (Buffarini, Cueva, Luiz Araújo, Chavez e Gilberto) fazendo parte de um plantel renovado que agora precisa usar as águas calmas do semi-amistoso Paulistão para encontrar o prumo.
Na pré-temporada, o São Paulo voltou da Florida com um reluzente troféu, muitas selfies nos estúdios da Universal Pictures, jogou dois excelentes primeiros tempos e não sofreu gols. Entretanto, não balançou as redes, perdeu caminhões de chances claras, não venceu no tempo normal e fez dois segundos tempos ruins - compreensíveis se pensarmos nas inúmeras alterações do intervalo, como tipicamente acontece em amistosos do gênero. Mais uma vez, a boa notícia é acompanhada de algumas ressalvas, como recomenda o bom senso.
Na estreia do Paulista, é preciso observar, não enfrentamos qualquer rival. O atual vice-campeão Audax pode ter um presidente folclórico, homofóbico e bravateiro, mas realiza trabalho sério apostando em Fernando Diniz, que há muito tempo prega peças nos grandes clubes e apresenta “loucuras” táticas (que tal chamarmos de atualizações?) que influenciaram diversos treinadores da Serie A nós últimos dois anos. Seu 3-4-3 móvel, veloz e extremamente bem treinado representou um desafio de alto nível para o técnico principiante, que viu seu escrete ser engolido na 1ª metade do primeiro tempo.
O 4-1-4-1 tricolor tentou marcar a saída do time de Osasco por pressão e apenas deixou escancarado o óbvio: novas idéias exigem tempo, repetição e coordenação para serem bem executadas. Com apenas dois jogadores (Chavez e mais um, enquanto outros assistiam guardando posição) pressionando sua famosa saída de bola, o time de Fernando Diniz encontrou poucas dificuldades de circular a pelota até seu meio-campo em passes curtos. A criativa estratégia de recuar Pedro Carmona, um meia de DNA ofensivo, para ser até mesmo último homem e qualificar o passe enquanto os demais jogadores abriam deu muito certo e o Audax logo abriu 2x0. O camisa 10, aliás, já havia feito grande Paulista ano passado pelo Novorizontino (onde foi companheiro de Luiz Araújo) e foi disparado o melhor em campo na Arena Barueri neste domingo.
Para complicar, Wellington Nem sentiu contusão no início da partida e foi substituído por Cícero, liberando Cueva para jogar na linha de frente. O time melhorou com o camisa 10 se entendendo bem com o criticado Chavez, que marcou um doblete para empatar, 2x2. Logo antes do intervalo, o talentosíssimo meia peruano ainda cobrou uma falta no travessão e deu a ilusão de que a virada são paulina era iminente, apesar das atuações individualmente terríveis de Buffarini, Bruno, Rodrigo Caio e Thiago Mendes.
O sentimento positivo foi enganoso. O São Paulo voltou à segunda etapa apenas com Chavez (inexplicavelmente substituído) ligado no jogo, roubando bolas, combatendo e perdendo chances, como é de seu estilo. No mais, viu-se um time entregue ao calor, desatento e incapaz de fazer o que a pré-temporada indicou que faria: triangular em progressão, atacar seu adversário com velocidade e recuperar rapidamente a bola. Sem intensidade alguma, o São Paulo recorreu ao velho vício de levantar bolas a esmo na área e pagou por sua desconcentração em uma bola parada e um contra-ataque que resultou em pênalti.
Ao fim e ao cabo, o 4x2 foi um placar justo. Falando na cultura resultadista, é importante dizer que, mesmo que o São Paulo tivesse vencido, não teria feito boa estreia. Isso deve suscitar apenas reflexões, e não conclusões sobre o novo time que está sendo rascunhado. Para jogar no modelo que Ceni e Beale desejam, é necessário haver imposição física, tanto para as transições ofensivas em velocidade quanto para cercar o adversário e retomar a posse o quanto antes. Nada disso aconteceu em Barueri domingo, com a equipe são paulina visivelmente de língua de fora e ainda com pouco repertório para superar a “muralha de handebol” e a boa marcação por zona montadas pelos comandados de Fernando Diniz no segundo tempo.
Para melhorarmos, devemos contar não apenas com a natural evolução física dos jogadores, mas com maior solidariedade e proximidade entre eles. Estamos falando de um novo elenco e um novo comandante, portanto estranho seria se não tivéssemos dificuldades. A saída de David Neres, a lesão de Wellington Nem e a novela mexicana para a liberação de Jucilei são apenas os três primeiros de muitos percalços de uma temporada que promete fugir da mesmice, mais ou menos como o nosso último adversário fez.