Quando analisamos os treinadores, vamos da supervalorização à desvalorização que beira o linchamento. A diferença entre o gênio e o burro pode ser o escorregão de um atacante.
Para quem curte o lado tático e estratégico do futebol, algumas partidas são reveladoras. No domingo, enroscado com o Flamengo no empate, Cuca usou o banco de reservas e a coragem para encostar nos líderes do Campeonato Brasileiro.
Não basta ter bons reservas, é preciso ter peito e conhecimento para fazer mudanças. A troca do volante Matheus Sales por Luan levou a campo um jogador que a torcida não gosta, mas os treinadores respeitam.
Tchê Tchê e Moisés foram recuados e o novo companheiro instalou-se na esquerda, reconfigurando a maneira de jogar da equipe. O Palmeiras ganhou profundidade e um caminho para a vitória, para seu ataque sem referência, baseado na movimentação.
Quando Jean fez 2 a 1, de pênalti, aos 26 do segundo tempo, Brasília assistia a um Palmeiras leve. O meio de campo composto por Cleiton Xavier, Tchê Tchê e Moisés; no ataque, Dudu, Gabriel e Luan.
Temos gente trabalhando bem e ajudando a melhorar o futebol brasileiro, mesmo quando encontramos treinadores estrangeiros no banco de reservas, como Edgardo Bauza e Paulo Bento, em Cruzeiro x São Paulo.
VIRADA
Quatro partidas em dez dias, quatro vitórias, duas delas às 11 horas. A virada corintiana sobre o Coritiba foi arquitetada sem nenhum treinamento relevante no gramado na semana passada, dedicada apenas à recuperação dos jogadores.
A alteração do sistema, agora o 4-2-3-1, libertou Guilherme, mais próximo do gol e recuperado para a criação. Como todos no Brasileirão, o time sofre com o calendário da genial CBF.
A noite chuvosa em Itaquera foi temperada pelo risco. Com a troca de volante e zagueiro por atacantes, parecia um jogo eliminatório em pleno campeonato de pontos corridos. Com o passe para André empatar e o gol da vitória, o lateral Uendel foi a cara da virada.
Ao recuar para defender sua vantagem, o Coritiba trocou sua boa e incômoda marcação pelo perigo de ter o Corinthians em sua área durante todo o segundo tempo. Custou caro. O grupo de Tite não está pronto, mas vai dar trabalho.
SELEÇÃO
Quase dois anos depois do 7 a 1, o time de Dunga disputou 11 partidas oficiais e venceu apenas Venezuela e Peru, duas vezes cada seleção. Nossa extensa transição não é fruto de vitórias, mas de fracassos. Seria esse nosso novo tamanho?
A seleção trafegou entre a esperança de se reencontrar competitiva e a dificuldade de reorganizar o talento que ainda nos resta. Por conta de um erro de arbitragem, o frango de Alisson não foi parar no placar. Depois daquele lance, o empate parecia estar de bom tamanho.
Apesar do bom futebol de William pelo setor direito, faltou contundência na área equatoriana. Até a entrada de Lucas Lima, aos 30 minutos do segundo tempo, a seleção jogou no sistema 4-1-4-1.
Renato Augusto e Elias não deram conta da organização do time. O campeão brasileiro de 2015 tinha outro formato, com um terceiro jogador no setor e não dois atacantes pelos lados.
Com a posse de bola, Jadson circulava e dava volume à organização. A presença de um articulador muda muito, muda o passe. Mesmo com alguma dificuldade na recomposição defensiva, Lucas Lima poderia fazer a função, como no Santos. William, mais adaptado à seleção que Phillipe Coutinho, cairia bem no lado esquerdo.
O mais difícil será ver nosso treinador sofrer menos e se divertir mais com o futebol. Antes das questões técnicas, é preciso refletir sobre o tamanho do futebol brasileiro. É nítido como nos apequenamos dentro e fora do campo.
O tempero do risco
Fonte Estadão
6 de Junho de 2016
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