Único brasileiro vivo na Copa Bridgestone Libertadores, o São Paulo vive o seu melhor momento na temporada. Com superação e empenho dentro de campo, o Tricolor resgatou a confiança do torcedor, que já vislumbra um possível tetracampeonato continental. Pouco tempo atrás, no entanto, o cenário era bem diferente. Mais precisamente há exatos seis meses, o time do Morumbi sofria uma das derrotas mais doloridas de sua história: 6 a 1 para o arquirrival Corinthians.
A goleada aconteceu no dia 22 de novembro de 2015, em Itaquera. Em duelo válido pela 36ª rodada do Campeonato Brasileiro, o São Paulo foi completamente dominado pelos reservas do rival e sofreu o maior revés do Majestoso. No dia seguinte, o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, cobrou publicamente o elenco por falta de comprometimento e prometeu mudanças drásticas para o ano seguinte.
Elenco
Mudar o perfil dos jogadores do clube era o principal objetivo. Embora a vaga para a Libertadores tenha sido alcançada ao término do Brasileiro, o elenco era considerado de pouca vibração, que não se incomodava com as derrotas. Leco afirmou após a derrota para o Corinthians que “não via comprometimento em todos os integrantes” da equipe. Apesar disso, não aconteceu anunciada reformulação no plantel. O principal motivo: a crise financeira, que impediu um grande volume de contratações. Com isso, os reforços foram pontuais – Diego Lugano, retornando ao clube após dez anos, e o argentino Jonathan Calleri, por empréstimo até o final da Libertadores, foram os principais nomes. Maicon, cedido pelo Porto ao time do Morumbi até 30 de junho, posteriormente se confirmaria como um dos grandes acertos. Além deles, Mena e Kelvin também foram contratados por empréstimo.
Comissão técnica
Apesar da contratação do argentino Edgardo Bauza para assumir a equipe, a mudança mais comentada na comissão técnica nesta temporada foi a saída de Milton Cruz após 22 anos de serviços prestados ao clube – em janeiro, ele já havia sido afastado da função de auxiliar-técnico para comandar o núcleo de análise de desempenho no clube, departamento então recém-criado. Curiosamente, Milton havia sido o treinador à frente da equipe na trágica derrota para o Corinthians.
Para o seu lugar, o clube contratou o ex-jogador Pintado, que estava no Guarani. O novo contratado assumiu a função de auxiliar e passou a atuar principalmente no papel de resgatar a confiança de alguns jogadores do elenco.

Pintado substituiu Milton Cruz na função de auxiliar técnico da equipe (Érico Leonan / São Paulo F.C.)
Diretoria
Outra mudança importante aconteceu na diretoria do clube. Ataíde Gil Guerreiro deixou a função vice-presidente de futebol para assumir as relações institucionais. Junto dele, Rubens Moreno também deixou o departamento e foi substituído por Luiz Cunha, que já exercia a função nas categorias de base, em Cotia.
A gestão do futebol do Tricolor vinha sendo alvo de críticas desde a temporada anterior. Mantida para 2016, a direção não resistiu às mudanças após novos resultados ruins – a situação ficou insustentável principalmente depois da derrota por 2 a 0 para o Palmeiras, pelo Campeonato Paulista, e o empate em 1 a 1 contra o Trujillanos (VEN), ainda pela fase de grupos da Libertadores. A troca no comando, seguido de resultados satisfatórios dentro de campo, acalmou as críticas das arquibancadas.
Vale destacar que Ataíde Gil Guerreiro foi expulso do Conselho do São Paulo em abril por conta dos incidentes envolvendo Carlos Miguel Aidar. O ex-presidente também teve o mandato de conselheiro cassado.
Postura
Nenhum dos pontos citados anteriormente surtiram tanto resultado dentro de campo como a mudança de postura dos próprios jogadores. Após iniciar a temporada sem atuações convincentes, o elenco voltou a receber críticas públicas da diretoria. O momento mais significativo aconteceu quando o diretor executivo de futebol, Gustavo Vieira, declarou publicamente que a direção não estava satisfeita com o comportamento dos jogadores.
Às vésperas da partida fora de casa contra o River Plate (ARG), Gustavo cobrou “coração” da equipe, que vinha de derrota por 3 a 1 para o São Bernardo, no Pacaembu. Algumas semanas antes, o São Paulo havia sido derrotado pelo Strongest (BOL), na estreia da fase de grupos da Libertadores. A reclamação surtiu efeito, e dois dias depois, o Tricolor conseguiu empate por 1 a 1 em Buenos Aires.
A equipe voltaria a oscilar em jogos seguintes, como no empate com o Trujillanos (VEN) e derrota por 4 a 1 o Audax na semifinal do Paulistão. Em momentos cruciais para seguir na Libertadores, porém, o time se superou e mostrou muita raça durante os 90 minutos. Foi assim na vitória sobre o River Plate (ARG), no Morumbi, e no heroico empate com o Strongest (BOL) na altitude de La Paz – resultado que valeu a vaga nas oitavas de final da competição continental. Nos duelos que viriam nas fases seguintes, contra o Toluca (MEX) e Atlético-MG, o time voltaria a mostrar total entrega dentro de campo e recuperaria a confiança dos torcedores.

Hudson assumiu a braçadeira de capitão. Antes dele, Michel Bastos e Denis usaram a faixa (Divulgação)
Vestiário
A postura dos atletas durante as partidas não mudaria se não houvesse um novo comportamento do elenco entre si. Jogadores que outrora chiaram ao serem substituídos aceitaram decisões tomadas por Edgardo Bauza. Sob o comando de Juan Carlos Osório, por exemplo, Ganso ficou visivelmente irritado após uma substituição e chutou uma garrafa d’água que estava no gramado. Em outra ocasião, Michel Bastos também reclamou ao ser retirado de campo.
Com Patón, no entanto, o grupo parece estar mais aberto às mudanças. O camisa 10, inclusive, chegou a ficar no banco de reservas em jogos decisivos na altitude (contra Strongest e Toluca), mas não manifestou insatisfação. Michel, que foi alvo de críticas de torcedores organizados, recebeu apoio de companheiros e comissão técnica e deu a volta por cima no clube. Até nomes que andavam meio esquecidos, como o volante Wesley, mostrou bom desempenho em momentos importantes.