Análise: O São Paulo tem 47 dias para não contratar um novo goleiro

Por Alexandre Lozetti

Mesmo com as falhas cometidas até aqui, substituir Denis na reta final seria um desrespeito à identidade que o Tricolor construiu durante a Libertadores.
O São Paulo tem tempo suficiente para contratar um goleiro que seja titular na semifinal da Taça Libertadores, contra o Atlético Nacional, da Colômbia. Mas não vai e nem deve fazer isso. Seria um desrespeito à própria formação de um time que foi bem mais longe do que se esperava, e ainda pode ir além.
Nesses próximos 47 dias sem Libertadores, certamente vai se falar na possibilidade de recorrer a um novo goleiro. É até normal. O desempenho individual de Denis não esteve à altura do comportamento coletivo do São Paulo. A primeira falha, contra o River Plate, em Buenos Aires, pesou mais do que deveria.
A sensação de desconfiança do público e da mídia seria normal depois de 19 anos de Rogério Ceni como titular. Era como se a posição tivesse um dono, e que dono. A presença de um “intruso”, quem quer que fosse, geraria insegurança, sentimento que só não poderia ter atingido tão em cheio o próprio sucessor.
Mas Denis está na semifinal, feito que desde 1992 o São Paulo havia conseguido seis vezes, três com Zetti e três com Ceni. Uma galeria respeitável. E é com ele que o Tricolor terá de tentar a sétima final, o quarto título. O clube deve isso à bela história que está construindo.
Quando Rogério Ceni guardou suas luvas na eternidade, deixou um grupo de jogadores que precisava aprender a conduzir seu destino. Como se fossem alunos que, depois de muitos e muitos anos, não tinham mais o representante de classe para discutir os rumos com a inspetora. Ou moradores de um condomínio sem o síndico.
"Não há a menor dúvida que o São Paulo quer ser campeão. Mas quer muito mais ser campeão com Denis no gol. Sua permanência é um estímulo à solidariedade que, hoje, faz diferença".
Falar apenas em “líder” é clichê. O caminho do São Paulo passaria a ser decidido a cada gesto. E tem sido um aprendizado espinhoso. Lugano chegou para ajudar a botar ordem na casa. Maicon não foi contratado para isso, mas, surpresa, complementou-se em postura e personalidade a figuras como Michel Bastos, Paulo Henrique Ganso, Hudson, Rodrigo Caio, Alan Kardec, Wesley, Calleri...
Cada um ao seu estilo, os jogadores se deixaram influenciar por uma gestão séria e pelo efeito externo. Abriram-se à necessidade da torcida de voltar a ser feliz e entenderam que ela se complementava à necessidade individual de cada um se tornar um vencedor.
O semifinalista da Libertadores foi construído no buraco. Estavam todos por baixo. Só isso despertou o instinto de ajuda mútua. Denis está completamente inserido nisso.
No fim do jogo contra o Atlético-MG, com a vaga nas mãos, o goleiro se dirigiu à torcida com olhar de gratidão. Contemplou como se redesenhasse na cabeça os últimos meses, e pensasse: "E não é que estamos aqui?!"
Foi abraçado por Edgardo Bauza, carregado por Ganso e Kardec, acarinhado pelos companheiros. Porque o segredo da ascensão do São Paulo é a torcida de um pelo sucesso do outro. A reação geral às convocações de Ganso (na pré-lista) e Rodrigo Caio para a Copa América é um sinal disso. As recentes comemorações de gols também.
Não há a menor dúvida que o São Paulo quer ser campeão. Mas quer muito mais ser campeão com Denis no gol. Sua permanência é um estímulo à solidariedade que, hoje, faz diferença. E numa realidade de poucas opções no mercado – vide falhas de goleiros consagrados como Victor e Jefferson em partidas decisivas –, substituir Denis seria dar de ombros à identidade de um time pelo qual o torcedor se encantou.
Há de treinar sim. Há de melhorar sim. Há de amadurecer sim. E se nada der certo, há de se dar chance a Renan Ribeiro sim. Mas contratar outro goleiro? Não.
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