Técnico argentino admite que não esperava goleada por 4 a 0 em cima do Toluca
O jeito sisudo de Edgardo Bauza na beira do campo ou nas entrevistas coletivas nada tem a ver com seu estilo de vida longe do trabalho. Tanto que o treinador do São Paulo não deixou de sorrir nem sequer quando falou sobre sua decisão mais difícil à frente do Tricolor: deixar Ganso no banco na partida contra o The Strongest, quando o time não poderia perder na altitude para seguir vivo na Libertadores.
Na sexta-feira, dia seguinte à goleada por 4 a 0 em cima do Toluca, pelas oitavas de final, o argentino conversou com o Blog durante quase uma hora em um shopping em Alphaville, região nobre da Grande São Paulo onde vive com a esposa e o filho mais novo, Nicolas, de dois anos e meio.
No bate-papo, ele falou também sobre as ambições do São Paulo, suas dificuldades, admitiu a necessidade de cinco reforços, opinou a respeito dos concorrentes na Libertadores…
BLOG_ Você já morou no Equador, na Colômbia, no Peru, México… o que está achando da vida em São Paulo?
EDGARDO BAUZA_ Eu me defino como uma pessoa adaptável. Depois de tantas idas e vindas, me acostumo facilmente aos lugares e ajuda o fato de que eu sou monotemático: vivo para o futebol. Vou de casa para o treino e do treino para casa. Não sou de sair, exceto para jantar com minha esposa.
Mas o que já conheceu daqui? Assustou-se com algo?
Não me assusto com nada. O trânsito era como eu esperava. Cheguei a me perder nos primeiros dias, na Marginal Tietê, mas já me viro bem. Costumo ir a restaurantes e shoppings em Perdizes e Jardins, além de Alphaville, onde moro.
O futebol brasileiro é muito diferente do que se pratica na América do Sul?
Não é diferente. O que é diferente é a quantidade de partidas disputadas aqui. Algo terrivelmente maior. Uma equipe argentina que dispute todos os torneios faz 55 partidas por ano. Aqui, jogam de 70 a 80. É uma loucura.
Por causa dos campeonatos estaduais?
Sim, exatamente. E esse número atenta contra o atleta e contra o técnico, que não tem tempo de trabalhar. O problema é que há muitos interesses, como a TV, as federações, os clubes do interior… Como se joga demais, os atletas são submetidos a uma exigência alta, casos de lesão são maiores e os técnicos não têm tempo para trabalhar.
Dá para dizer que o São Paulo só fez 4 a 0 no Toluca porque teve uma semana de trabalho?
Obviamente. Se não, não teríamos como sustentar a intensidade com que jogamos durante os 90 minutos. Era necessário que o Toluca não controlasse a bola, porque é um time muito forte, então, exige que os jogadores fizessem pressão alta. Chegamos descansados para o jogo e ter ficado fora do Paulistão nos permitiu isso.
Há muita gente que diz que os jogadores brasileiros não são disciplinados taticamente.
O jogador daqui não é displicente. Pelo menos esse plantel mostrou que se adapta ao que peço. Eles entendem bem e fazem, a cada semana, as coisas melhorarem.
Várias de suas passagens pelos clubes da América do Sul foram longas. De quanto tempo precisa para dar a sua cara?
É difícil mensurar, porque depende da qualidade dos jogadores, de que os resultados ajudem… Chegar a junho é o desafio, porque o São Paulo é grande e, se os resultados não aparecem, é complicado. Na metade do ano, já combinamos com a diretoria de contratar de quatro a cinco jogadores.
Já teve a impressão de que seria demitido pelo São Paulo?
Sei que comecei o trabalho, mas não sei se vou terminar, porque é assim o futebol. Mas sou uma pessoa positiva, embora consciente de que a equipe onde estou é gigante e necessita de resultados. Estou muito seguro do que estou fazendo, do diagnóstico que passei à diretoria e do caminho que escolhi. O futuro, não sei…
Você falou em até cinco reforços. Para quais posições?
Um lateral-direito, um volante e três atacantes.
Ainda tem esperança em contratar o Buffarini e o Ortigoza, que trabalharam contigo no San Lorenzo?
Hoje, eles estão distantes. Vai depender do que o San Lorenzo pensar na metade do ano. Mas eles somariam demais.
Onde estão os reforços que o São Paulo procura?
Neste momento, estou analisando entre dez e 15 jogadores. Do Brasil, da América do Sul e da Europa, para ver quais são os melhores e quais se encaixam ao que procuro. E meu filho (Maximiliano) é quem me ajuda gravando as partidas e separando os melhores e piores momentos dos jogadores.
Seu filho já trabalhou contigo?
Ele sempre esteve comigo, trabalhando na edição de vídeos do meu time e dos adversários. Mas não pude trazê-lo para o São Paulo, porque o clube já tem um departamento.
O atual elenco é fraco?
O São Paulo, historicamente, sempre teve vários jogadores de seleção. Hoje em dia, não tem mais. Precisamos melhorar o grupo e isso não significa que os jogadores que temos aqui não são bons.
Por que o Tricolor é tão instável, sendo goleado pelo Audax e fazendo 4 a 0 no Toluca?
Tivemos muitos altos e baixos. O curioso é que, da equipe que perdeu do Strongest para essa do 4 a 0, foram poucas mudanças de nomes. O time está crescendo pouco a pouco e hoje é bem mais seguro, forte.
Dá para garantir que as oscilações vão terminar?
Creio que sim, mas será difícil repetir o nível de atuação como a do Toluca. O que eu garanto é: vamos fazer do São Paulo uma equipe muito complicada para os rivais. Não vai ser fácil para ninguém ganhar da gente.
Imaginava que o São Paulo pudesse fazer 4 a 0 no Toluca?
Não, não. Fomos para o jogo com duas premissas: ganhar a partida e não levar gols. Com 15 minutos, me dei conta de que dava para ganhar e bem. Foram 45 minutos extraordinários, em que o adversário nem sequer chutou no nosso gol.
Como explicar os dois gols do Centurión?
Se tudo corresse bem, talvez ele nem ficasse no banco, mas o Calleri estava suspenso e o Kardec teve uma indisposição e tomou quatro litros de soro. O médico até me disse que ele estava recuperado, mas eu o vi caminhar e decidi que era impossível usá-lo.
Por que se decidiu pelo Centurión como centroavante?
Ele treinou bem um dia antes. Mostrei vídeos dos zagueiros do Toluca e entendi que, com velocidade, ele poderia se dar bem. Fiquei muito contente, porque recuperamos um jogador. Até a torcida, que estava pegando no seu pé, o aplaudiu.
Como argentino que o conhecia há tempos: o que acontece com o Centurión?
Tudo é a cabeça. Ele vivia um pouco como a equipe: bem e mal. Agora, tenho a impressão de que vai mudar.
Depois do 4 a 0, qual a chance, em porcentagem, de classificação às quartas de final?
A porcentagem ficou mais alta, mas o jogo em Toluca será perigoso. Falei com os atletas no vestiário: temos de estar contentes, mas não ganhamos nada.
Teme mais a altitude de Toluca (a 2.750 metros do nível do mar) ou o time mexicano?
Tem três pontos: o Cardozo, técnico do Toluca, que eu conheço bem, fará de tudo para reverter o resultado. Depois, há um plantel muito bom, que fez ótimas partidas dentro de casa. Por último, a altitude, que é quase idêntica à de Quito, onde eu trabalhei pela LDU. Temos de tomar cuidado, porque a equipe que se desgasta fisicamente no começo paga um preço alto no fim.
Pode deixar o Ganso na reserva, como fez na altitude de La Paz, contra o Strongest?
A estratégia de jogo será mais ou menos a mesma: fazer um jogo cortado, sem dar a chance de protagonismo ao rival. Ainda não sei como vou armar o meio, mas pode ser que use o Wesley novamente.
Quando deixou o Ganso de fora, não imaginou que uma eliminação em La Paz poderia lhe custar o emprego?
Imaginei que me matariam se a gente fosse eliminado, com o Ganso no banco. Foi uma decisão corajosa e difícil, mas tenho de pensar no bem da equipe. O Strongest põe bastante gente no meio e eu precisava de três jogadores fortes.
O Ganso tem um histórico de brigas com técnicos. Como ele reagiu à reserva?
Conversamos e a reação foi boa. Ele me disse: “Sim, profe. Entendi”. Não houve problema nenhum e tenho a consciência de que fiz o melhor para a equipe. Agora, se perdêssemos, iam me matar.
O Denis volta na quarta?
Sim. Ele e o Calleri.
Qual adversário mais o encantou na Libertadores?
Não vejo um grande candidato, mas umas cinco ou seis equipes muito fortes: Corinthians, Atlético-MG, pretendemos incluir o São Paulo, o Boca Juniors em dois duelos será duríssimo, o Rosário, que joga com uma intensidade terrível… O Atlético Nacional nem foi tão bem contra o Huracán (pelas oitavas), mas é rápido.
Você já tem mais de 100 partidas e dois títulos na Libertadores. Qual o segredo do sucesso nesse torneio?
É um campeonato muito, mas muito difícil. Uma lição é que, quando se termina a fase de grupos, começa uma outra história, totalmente diferente, no mata-mata. E basta lembrar 2014, quando San Lorenzo e Nacional-PAR, que foram os dois piores da primeira fase, fizeram a final.
Por quê?
Porque, em 180 minutos, nem sempre ganha o melhor. Pode vencer quem cometer menos erros, for mais efetivo, mais inteligente e que potencializar seus pontos fortes.
Já pensou que pode se tornar o primeiro técnico da história tricampeão da Libertadores com três equipes diferentes?
(Risos) Deus queira! Toda vez que inicio um campeonato, seja qual for, entro para ser campeão. Já fui semifinalista com o Rosário, já perdi e fui campeão com a LDU, venci com o San Lorenzo, passei ao mata-mata pelo Sporting Cristal…
Há semelhança do Tricolor atual com San Lorenzo e LDU?
O São Paulo é mais parecido com o San Lorenzo, embora tenha menos opções no plantel. Já a LDU não tinha nada a ver, afinal, o Equador nunca havia visto um campeão. A gente sempre jogava como azarão.
Mas o São Paulo tem chances reais de ser campeão?
Hoje, o objetivo é ficar entre os oito melhores da América, o que seria um grande feito. Depois, pensamos passo a passo.
Tem esperança de que o Calleri fique após julho?
No futebol, nada pode ser tratado como absoluto. É verdade que, a cada gol que ele faz, aumenta o assédio. Tudo indica que ele saia, mas tentaremos.
O Lugano não vingou. Ele ainda pode ser titular?
Ele teve uma lesão, que o impediu de ter uma sequência. E a recuperação dele entre um jogo e outro tem sido maior do que 48 horas. Mas a ideia é que ele se coloque bem fisicamente e seja muito útil.
Aceitaria treinar a seleção?
Esse cargo é também político. E há técnicos de categoria no Brasil. Acho que seria impossível contratarem um argentino, assim como não contratariam o Tite para a seleção argentina. Seria uma honra para mim, mas diria que é impossível.
Você possui fama de retranqueiro, mas seu time tem o 3º melhor ataque da Libertadores.
Verdade? Quando uma equipe fica sólida, equilibrada, obriga o rival a se abrir para atacar. Na Argentina, sempre diziam que eu montava o San Lorenzo de maneira muito defensiva. Foi uma discussão que tive, até que falei para que seguissem pensando o que quisessem.
O quanto a crise política no São Paulo atrapalha o futebol?
Tento manter o time à margem do problema político, mas já foram embora duas pessoas que trabalhavam com a gente por causa disso: o Milton Cruz, que nos ajudava muito, e o Ataíde Gil Guerreiro.
Mas atrapalha?
Foram problemas que não me atrapalharam. O que chama atenção é que a política dos clubes no Brasil é terrível. Na Argentina, são 12 dirigentes e ponto. Aqui, são quase mil.
Bauza fala das chances de título na Libertadores, sobre reforços, além do risco de demissão, da ideia de pôr Ganso no banco de novo...
Fonte Blog do Jorge Nicola
1 de Maio de 2016
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