Anfitrião e ídolo, Raí 'se multiplica' em camarote e mal consegue torcer em vitória do São Paulo

Fonte ESPN
Raí recebeu o ESPN.com.br em seu camarote no estádio do Morumbi
A casa está cheia, e o jogo é de Libertadores. Os olhos estão dois ou três passos à frente da bola, e a mente já imaginou quais jogadas deveriam sair a seguir. É fácil prever qual seria o futuro ideal quando se conhece tão bem o terreno. A brecha na defesa adversária foi identificada, é hora de matar o jogo. Na hora do chute, a perna acerta o ar, a chuteira vira sapatênis, o short torna-se calça e a camisa molhada de suor agora ostenta um perfume fino. O tempo passa para todo mundo, e não foi diferente para Raí.
Sentado em uma poltrona do camarote que leva o seu nome no estádio do Morumbi - lugar sagrado sempre que está na capital paulista -, o ex-camisa 10 do São Paulo não tem mais o poder de ajudar o time dentro de campo. E, mesmo após tantos anos, dói não vestir mais a camisa. Restou torcer.
O ESPN.com.br assistiu à vitória do São Paulo sobre o River Plate-ARG, por 2 a 1, ao lado do ídolo tricolor na "Sala Raí" e presenciou todas as reações do ex-jogador em uma partida do torneio que conquistou em 1992.
"É natural para gente da minha posição ver o posicionamento da defesa adversária, olhar se o atacante está infiltrando certo. O que mais dói como ex-camisa 10 é quando você vê brechas e o meia não consegue aproveitar", conta.
Mas nem pense que Raí é um torcedor normal em dia de jogo. O ex-meia quase não consegue ver o jogo em paz. Anfitrião, ele tem que dar atenção a convidados, acenar para quem o reconhece, sorrir quando tem o nome gritado por parte da arquibancada e, claro, apoiar o clube do coração.
O CICERONE
Raí chega ao camarote cerca de 50 minutos antes do jogo e vai direto para uma sala reservada a ele. O ex-jogador só se junta aos convidados e familiares pouco antes da partida começar. A partir daí o tempo é dedicado a conversar com os conhecidos e tirar fotos com quem pede para registrar o momento.
Nada substitui a experiência de estar no estádio ao vivo
Raí
O fluxo em volta do ídolo diminui um pouco quando o a partida começa. Sentado na poltrona, ele estufa o peito nos lances mais perigosos. A elegância é similar aos tempos em que jogava no Morumbi. Se o juiz marca falta, a primeira reação é bater o olho em uma das televisões que ficam no camarote para ver o replay. Mas nada de nervosismo, todos os gestos são contidos.
"É uma mistura de anfitrião com torcedor. Tem hora que dá raiva, que você quer xingar. Às vezes escapa a coisa da paixão. Nada substitui a experiência de estar no estádio acompanhando ao vivo. Essa magia do futebol ainda é a mesma", afirma.
O "assédio" não irrita. Raí admite que não é tão simples a missão de assistir ao time e que às vezes precisa "forçar" o momento de tranquilidade para torcer.
"Tem alguns momentos que eu quero ver o jogo inteiro assistindo, mais concentrado. Hoje era decisivo, mas não era eliminatória. Quando é, eu sento na poltrona, desligo e presto atenção em tudo. Em jogos decisivos, eu até acabo sendo mal educado com os convidados, sento e nem escuto quem está do lado.", revela.

Raí com convidados franceses
A paz de Raí "acaba" com menos de 20 minutos do primeiro tempo. Um amigo cientista político da França chega ao local acompanhado de membros da embaixada do país europeu no Brasil. E lá vai o ex-meia conversar com os convidados em um francês invejável, herança dos tempos de Paris Saint-Germain.
A tática para ver o que está acontecendo em campo não é das mais fáceis. Entre uma frase e outra, o olho desvia para o gramado. É exatamente assim que o ídolo são-paulino vê o primeiro gol marcado por Jonathan Calleri.
Pouco tempo depois, Raí está novamente na poltrona e começa a acompanhar o desempenho tricolor com mais atenção. Isso até pintar uma falta para o São Paulo. É a deixa para que centenas de torcedores localizados no setor da arquibancada mais próximo ao camarote ignorem completamente o lance para reverenciar o ídolo e pedir para que ele entre em campo para cobrar a infração. E lá está o ex-jogador, batendo palmas e acenando para os fãs.
"Raí, Raí, o terror do Morumbi", gritam.
TRANQUILIDADE E ANÁLISE
A situação melhora para o dono da festa após o intervalo. Já sem os amigos franceses e com fãs mais acostumados com a sua presença, Raí volta à postura que tem como torcedor. Calmo, gesticula para desenhar a melhor jogada e só se levanta para comemorar o segundo gol do São Paulo, também anotado por Calleri.
Dos 20 minutos em diante, ex-camisa 10 finalmente fica à vontade. Belisca os quitutes disponíveis e se concentra a tempo de ver a pressão que o time sofre após a saída contestável do goleiro Denis e o gol do River Plate, marcado por Iván Alonso. A festa com o apito final também é contida, apenas algumas palmas.
"Já vejo uma postura diferente nos atletas, uma cumplicidade maior em cada jogada. Dá para perceber uma união maior. Em vontade, dedicação e atitude melhorou muito. Obviamente que queremos chegar longe e ainda falta conjunto, entrosamento. Se estivermos melhores coletivamente, individualmente vamos crescer", analisa.O cenário no fim do jogo é similar ao do começo. Raí tira mais algumas fotos, acena para quem passa pela porta do camarote e reconhece o ídolo. Mas não sai sem antes fazer uma análise da vitória tricolor.
Atencioso, Raí se despede dos funcionários que cuidam do seu camarote e deixa o estádio. O ritual vai se repetir no próximo duelo decisivo do São Paulo no Morumbi.

Faixa do título Mundial de 1992
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