?Edgardo Bauza está no Brasil há menos de seis meses e nesse pouco tempo já experimentou a gangorra do futebol brasileiro: classificação na pré-Libertadores, derrota importante em casa, crise entre a torcida e alguns jogadores, vitória por goleada... O argentino concedeu uma entrevista ao site ?UOL Esporte, na qual falou sobre diversos assuntos e repetiu um termo que, para ele, resume o futebol: a "jerarquia", ou seja, o peso, a importância, o protagonismo. Confira alguns trechos.
1. Vida no Brasil
?"Eu sou, como me definiria minha esposa, monotemático (risos). Enquanto eu possa estar em um campo de futebol comandando, num clube que me dê todas as possibilidades de trabalhar, estou bem. Estou adaptado à cidade, estou tranquilo, conheço bastante para poder me locomover com tranquilidade e com os problemas normais de transito que todos vivem em São Paulo. Vivo mais para fora da cidade e levo entre meia hora e 40 minutos para chegar ao CT, mas sim, estou bem, tentando conhecer ainda mais a cidade. Mas com certeza vai levar muito tempo para conhecer. Estou bem e as pessoas estão me tratando muito bem".
2. Futebol brasileiro
?"É difícil, para o argentino e para qualquer estrangeiro. É o único país do mundo onde um time grande como o São Paulo joga 80 partidas no ano. Então a comissão técnica tem que modificar a metodologia de trabalho. Não pode trabalhar como trabalha em qualquer país do mundo, de domingo a domingo, ter cinco dias para poder trabalhar. Em outros países você tem durante o ano muitas semanas para poder trabalhar. Aqui não. É impossível. Tem que se adaptar e é complicado, porque eu acho que todos os times do mundo precisam de horas em um campo de jogo para trabalhar, no tático, no técnico, nas jogadas, na repetição".
3. Importância do descanso
?"Há alguns anos atrás, nessas situações, jogadores de grande "jerarquia" resolviam. Mas hoje esses jogadores estão fora do Brasil. Ainda há bons jogadores, mas não há mais aqui os jogadores dessa "jerarquia" que falei. Por isso fica difícil para os times brasileiros quando têm que jogar contra grandes times de outros países. O Brasil já não marca essa diferença que marcava antes. Ficou mais difícil. Acho que em algum momento o futebol brasileiro tem que perceber que há um erro. Isso, para mim, é um erro. Jogar tantos jogos no ano... É preciso encurtar ou nos estaduais ou no nacional para que os treinadores possam trabalhar por mais horas no treinamento".
4. Adaptação ao São Paulo
?"Eu acho que o time já está adaptado. Mas acho que eu mudaria essa pergunta (risos). Eu que já estou adaptado aos jogadores do São Paulo. Tive que modificar a metodologia para que eles se acostumem e pra que pudessem captar a ideia. Hoje eu vejo o time muito melhor do que nas primeiras três ou quatro semanas de trabalho. A ideia já está dentro do elenco, falta melhorar".
5. Líderes
?"No elenco, a chegada do Lugano obviamente reforçou o perfil de liderança. Mas o Maicon também assume essa liderança por causa da trajetória e da idade dele. Ele é importante. À sua maneira, Ganso também, e Denis. Eles são dois jogadores que agregam coisas importantes. O bom é que essa liderança não se exerce sempre pelo mesmo e também nem sempre no mesmo ambiente. Um é líder no vestiário, outro na concentração e outro no treino. E é necessário que o técnico tenha a continuidade da própria palavra no elenco, e esses líderes fazem esse trabalho".
6. Centurión
?"O momento de Centurión passa por uma questão psicológica mais do que pelo futebol. Do meu lugar, tentei dar a ele a confiança que todo jogador precisa, e estamos tentando manter isso, porque é um jogador ao qual não faltam virtudes. A velocidade dele e a precisão nos últimos 30 metros são qualidades que fizeram com que ele chegasse ao São Paulo. Da parte psicológica, que ele se recupere, esteja bem e que possa ajudar ao time a ser mais eficiente na frente. Eu o vejo numa etapa, digamos, de transição. Ele evoluiu, mas falta a ele ainda subir outro escalão. Estamos tentando ajuda-lo para que ele possa assumir isso e para que se transforme no jogador que esperamos".
7. Caramelo, João Schimdt, Daniel e Lucas Fernandes
"?Eu tinha que agregar esses quatro jogadores ao elenco. O meu discurso foi igual para todos os jogadores, não foi diferente para cada um. Para mim a única verdade é quando o atleta trabalha durante a semana em cada treinamento e demonstra para mim a vontade e o desejo de poder entrar. Desde o primeiro dia disse a todo o elenco que irão jogar aqueles que estiverem melhores. Não importa nome ou trajetória, o mais importante é o time. Esses quatro jogadores trabalharam para estarem onde estão e agora têm de defender essas posições. Dentro desses casos há diferenças, jogadores que são mais experientes e outros nem tanto, mas as regras são iguais para todos".
8. O que falta ao São Paulo
?"Precisamos terminar o que o time gera. Não temos a eficiência que precisamos ter. O 6 a 0 foi atípico, pois em muito jogos dominamos a partida e não conseguimos definir. Acho que falta ao time definir o domínio que consegue ter no jogo e que por razões de falhas, às vezes, não conseguimos".
9. Reforços
?"A ideia é trazer dois jogadores de ataque e depois um por linha. Por isso, entre 3 e 5 jogadores. Infelizmente não pudemos trazer Ortigoza nem Buffarini, que naquele momento se tentou. Não conseguimos. Mas bom, vamos ver. Estamos assistindo o Paulista e os estaduais para ver se encontramos bons jogadores para serem contratados".
10. Futuro no São Paulo
?"Se eu pensasse nisso não estaria trabalhando. Essa profissão é muitas vezes muito ingrata. Mas se eu for refletir que posso ser mandado embora se perder determinado jogo, aí não consigo trabalhar. Eu penso no time, vejo o time evoluindo, mas com um teto. Por isso penso que precisamos contratar jogadores em julho para aumentar esse teto. Nos vejo brigando no campeonato com equipes que hoje levam vantagem sobre nós, como o Corinthians, por exemplo".
11. Críticas da imprensa
?"Mais ou menos, eu vejo, escuto. Na Argentina aconteceu que em determinado momento eu tive uma disputa dialética na qual meu time era estampado como covarde e defensivo. E eu dizia: "Isso é de acordo como vocês pensam". Se a minha equipe defende com 11 jogadores quando o adversário tem a bola, para mim isso está certo. Quando temos a bola temos que atacar com dez. Agora existe uma onda que diz que os únicos técnicos que servem são aqueles que arriscam e vão para a frente completamente, e para mim o futebol não é isso. Para mim futebol é mais equilíbrio. Atacar com quem é necessário, às vezes com muito, e defender sempre com todos. Aqui também, na análise dos jornalistas se expressa a opinião de cada um de futebol, e então é difícil de satisfazer a todos. Em cada decisão que tomo, então, jamais entra a opinião de um jornalista (risos). Nem boa, nem ruim".
12. Leicester
?"(...) Eu acho que o Leicester não vai ser campeão, mas vai se classificar para a Champions League.Porque ao longo de um campeonato tão duro, o time de "jerarquia" acaba ganhando. Para mim, é o mais lógico. A "jerarquia" acaba se impondo. Vamos ver o que vai acontecer, mas já te digo: nessa profissão ninguém tem a verdade absoluta".
13. Seleção Brasileira
?"É uma análise muito difícil. Já não estão os grandes jogadores que marcavam tanta diferença. Há jogadores muito bons, mas não com essa "jerarquia". A seleção brasileira não ganhou jogos importantes, e isso marca para um time como Brasil. Eu vejo Dunga tentando impor uma ideia muito clara do que ele quer, mas vejo que se os resultados não vierem será muito difícil que ele consiga sustentar tal ideia. Ele tem capacidade, é um treinador que pode escolher os jogadores que quiser. É muito difícil, para qualquer técnico, sustentar a ideia se não houver bons resultados".
14. Classificação do Brasil para a Copa
?"Não tenho a menor dúvida. Porque a "jerarquia" acaba se impondo. Para mim, o futebol tem muito de lógica. O futebol não é como o tênis. Se Djokovic jogar 20 partidas contra os dez primeiros do ranking, pode perder uma. Brasil pode perder um jogo, mas falta mais da metade dos jogos. Vai terminar classificado, como a Argentina. Por que? Porque a "jerarquia" acaba prevalecendo".
15. A "água" da Copa de 1990
?"Eu acho que não tinha nada, porque eu tomei e não me aconteceu nada. Isso tem de ser perguntado aos que disseram que tinha algo. Além disso, como eu sempre digo, a "jerarquia" de um jogador terminou vencendo o jogo. Brasil teve cinco ou seis oportunidades muito claras de gol e Diego teve uma só, e deixou Caniggia mano a mano. Por isso sempre digo que "jerarquia" define as coisas. O Brasil jogou muito melhor. Taticamente Bilardo armou um time para cortar o Brasil, mas num erro posicional defensivo do Brasil Diego fez uma jogada. O futebol tem disso, também".
A 'jerarquia' e o futebol: Bauza fala sobre São Paulo, Brasil e campeonato inglês
Fonte 90min
12 de Abril de 2016
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