[SPFC.NET] Entrevista com o ex Superintendente de Futebol Marco Aurélio Cunha – PARTE 2

Fonte SPFC.Net
O SPFC.NET apresenta a segunda parte da entrevista cedida pelo ex Superintendente de Futebol, Marco Aurélio Cunha, à jornalista, Layla Reis;

Layla Reis: Na sua época o clube contava com um trio genial de preparação física, fisioterapia e fisiologia (Carlinhos Neves, Luís Rosan e Dr Turíbio Leite). Qual sua opinião sobre os atuais profissionais dessas áreas?
MAC: Não conheço o atual, que veio junto com o Técnico Bauza. O Zé Mário é um bom profissional. O que acontece é o seguinte, quando você tem uma equipe que fica bastante tempo, você tem um conhecimento longitudinal muito grande dos jogadores, desde os jogadores que vem da base, até os contratados se eles ficam bastante tempo no clube, você tem maiores aferições desses atletas. O jogador que chega para mim hoje, eu não sei nada dele. O profissional pode ligar para o antigo clube do jogador e ter uma informação, mas não vai ter dados concretos. Quando este atleta fica um ano, dois anos, eu passo realmente a influir na vida física dele, desde a parte da medicina, reabilitação fisioterápica e a performance atlética. Nós tínhamos, na minha época, o Wellington Valquer, um grande preparador e analista de desempenho. Não quero ser injusto, mas na pratica ele era mais importante até mesmo que o Doutor Turíbio, porque ele estava no dia-a-dia, Doutor Turíbio era uma fonte inspiradora de novidades do São Paulo, mas o trabalho ‘braçal’ era do Wellington. O Carlinhos Neves dispensa qualquer tipo de comentário. Tinha o Sérgio que acompanhava também. Esses caras, tinham um grande tempo de São Paulo, e esse tempo, ao invés de acomodar como muitos imaginam, ele aprimora. O (Doutor José) Sanchez está lá há muito tempo. Você vê que o DM do São Paulo, não tem problema, os problemas são trazidos para dentro do São Paulo, jogadores machucados, jogadores trazidos na base da oportunidade que queriam se reabilitar no São Paulo. E a gente reabilitava, e isso servia até mesmo como um custo mais baixo. Por pegarmos o jogador e ‘reviver’. O REFFIS fazia isso, especialmente com o (Doutor Luís) Rosan. O Sassaki é tão bom quanto o Rosan. O Betinho está na Seleção Brasileira. Então quer dizer que o São Paulo não perdeu a fisioterapia, perdeu o Rosan que é uma fonte inspiradora também, mas perdeu mais na preparação física.
Layla Reis: Nós vemos muitos jogadores cansados no segundo tempo...
MAC: Mas, agora, veja os jogadores que chegam, por exemplo; o Calleri e Maicon, com pouco tempo de clube, você não sabe nada sobre eles, você não conhece a performance dele. Mas quando você pega uma equipe estável, vai se criando um ‘corpo’, isso é: ‘eu já sei que tem que tirar aquele com determinado tempo de jogo, eu sei que esse aqui tá perto de uma lesão’. Mas quando você pega um grupo novo fica difícil, consegue saber a respeito de jogadores mais antigos como: Ganso, Thiago Mendes, Hudson, etc. Mas com bastante novos atletas fica difícil saber, eu não culpo a preparação, eu culpo a chegada em excesso de novos jogadores.
Layla Reis: Mas como proceder devido à necessidade de contratação?
MAC: De 2007 para 2008, trocamos quase metade do time, mas sabíamos como trocar e as peças chaves ficavam. Nós tivemos Alex Silva, Miranda e André Dias por um bom tempo e isso nos deu um bom retorno, tínhamos dificuldade na lateral direita, às vezes, Souza jogava por ali, Ilsinho veio, depois saiu. Mas, demos conta do recado. Nós conseguíamos manter uma unidade dessa equipe, com Rogério etc. O time era mais ou menos constante e as mudanças não eram tão radicais. Quando você muda radicalmente, demora cerca de um ano a um ano e meio. Ai troca o treinador e recomeça tudo novamente e começa a bater cabeça.
Layla Reis: Com nossa cultura imediatista, você acha que a pressão sobre o técnico por resultados prejudica o aproveitamento dos jovens no time principal?
MAC: Prejudica, diretamente prejudica. Tem outra coisa, o erro é querer que daquele time, que ganhou a Libertadores, subam todos. Se saírem dois, ergam as mãos para o céu. Nós tivemos lá por volta de 1982, à subida do Marcio Araújo, em 1985 ele estava pronto. O Nelsinho, lateral esquerdo, subiu em 1981, ficou durante quatro anos treinando com o profissional, em 1985, ele estava pronto. Aí, subiram Silas e Muller juntos, sempre convocados para seleções de base, dois caras excepcionais. E tiveram outros também. Mas, o importante é analisarmos, subiam aos poucos. Porque um jogador ‘Júnior’ tem entre 17 a 18 anos. E você não consegue sustentar uma equipe profissional com seis jogadores, nesta idade. O que precisa ser feito é programar, os mais maduros vão entrar no time principal, os menos maduros vão ficar esperando e amadurecendo junto com os outros para serem lançados. Assim você tem uma equipe que cada um vai entrando ao seu tempo. O problema são os Diretores da base. Não estou me referindo ao Luís Cunha, que é um ótimo Diretor. Acabam achando que vão subir os onze.
Layla Reis: Como seria um jeito?
MAC: No tempo que estava lá o Presidente Juvenal Juvêncio, isso eu sou testemunha, estava lá, por exemplo, o Borges (atacante em 2008), e tomava um cartão ou tinha lá suas contusões, o Diretor da base chegava e falava: ‘Olha tem um menino de 18 anos, que é muito melhor que o Borges’, ai tudo bem, sobe esse garoto, no primeiro jogo ele joga bem, no segundo ele sofre, no terceiro ele some. Porque é assim que funciona jogador vindo direto da base, sem tempo de amadurecer. O que acaba acontecendo é o seguinte, o jogador mais velho é desprezado, você acaba perdendo ele, porque o Diretor de base disse que a solução estava lá. Mas, às vezes, a solução não é hoje, é para daqui a um ano. E esse um ano ira servir para você aferir se este jogador é mesmo a solução. A formação ela vai se dando aos poucos, aí você tem que ter um time que suporte isso, eu não posso subir um menino da base, achando que ele vai ser um super-herói. Não posso subir o Lucas Fernandes, e falar agora vamos mandar embora o Ganso. Não é assim. Você põe o Lucas Fernandes, tem que chegar para o Ganso e falar assim: ‘Ganso, você tem mais um ou dois anos de contrato, me ajuda com esse menino. Não vai ser para ficar no seu lugar, é para o dia que você sair!‘ Assim você quebra o gelo. Fala para o Lucas Fernandes: ‘olha você vai jogar no lugar do Ganso, presta atenção. ’Todos querem ajudar, se for bem explicada à situação. É questão de explicar direito, e deixar aquele clima de: ‘Pô, eu quero ser igual ao Ganso’ e o Ganso dizer para ele: ‘Você vai ser’. Assim começa todo mundo a crescer junto. Eu lembro que o Silas e o Muller eram sem saber, rivais. Porque os dois eram meias. O Silas estava na seleção brasileira de juniores e o Muller não, ai o Silas voltava, e o Muller ficava preocupado que ele ia tomar o lugar dele. Eu cheguei pra eles e falei: ‘Vocês vão jogar juntos, vocês são muito bons. ’Ai, eu mentia para os dois, dizendo que um elogiava o outro: ‘Você não sabe, o Silas, falou que você joga muito’. E repetia com o Silas a mesma coisa. Daqui a pouco os caras estavam lá, jogando. Quer dizer isso é mentira boa, intriga positiva. Eles começavam a acreditar que dava para eles jogarem juntos. Porque eu sabia que eles podiam jogar juntos, e claro que o Cilinho também.
Layla Reis: É um caso parecido, entre Alan Kardec e Calleri?
MAC: Sim, os dois podem jogar juntos. São diferentes.
Layla Reis: Qual sua opinião sobre os técnicos estrangeiros?
MAC: Eles precisam de tempo de adaptação que alguns times malformados não lhes dão.
Layla Reis: E qual sua opinião sobre o técnico Edgardo Bauza especificamente?
MAC: Qualquer técnico sofre nesse momento. Ainda mais, àqueles de fora, que não conhecem o clube. Os estrangeiros têm uma dificuldade ainda maior. Ou se aposta no processo ou teremos mais problemas.
Layla Reis: O senhor era conhecido por blindar o elenco e evitar polêmicas. Como conseguir essa blindagem atualmente com manifestação de atletas em redes sociais, flagra em eventos, etc?
MAC: Primeiro, conversando com as pessoas, mostrando o que significa o São Paulo e qual é o risco das redes sociais. Explicando que os problemas são internos, e não devem ser colocados de forma rápida sem pensar, sem raciocinar, para fora. O ambiente tem que estar bom internamente, porque se estiver ruim, é óbvio que isso vá acontecer. E acaba entrando em campo. Eu falo o seguinte, inclusive, em palestras. ‘No jogo de futebol, você tem que entrar zero a zero, muitas vezes você entra com menos um, menos dois’. Eu sempre digo; ‘Quem resolve o jogo é o jogador. Quem faz o jogo começar zero a zero? É a gestão’. Simples assim.

https://www.youtube.com/watch?v=JgGJkSjsoCQ
Layla Reis: O Senhor acha que este elenco entra dessa forma; menos um, menos dois?
MAC: Eu acho que sim. Pelo que tenho visto acredito que sim. E é impressionante quando tem um grande jogo, eles ficam tão felizes e nós pensamos que aquilo deve se repetir. Aí, volta de novo naquele tipo de jogo. E não entendemos o porquê aquilo acontece. Acho que está faltando um pouquinho de sorte também. Mas, a sorte acompanha o bem estar interno. A bola só bate na trave e entra, para nós, se a coisa estiver andando bem. Se não houver maldade, se não houver palavras ruins, pensamentos ruins, inveja, esse tipo de sentimento negativo. Pra mim o sentimento positivo faz a bola bater e entrar para o seu lado. O gol sai, a jogada sai. Se tudo estiver bem, a bola bate no calcanhar do zagueiro e o gol é seu.
Layla Reis: Pelos seus conhecimentos, qual é a chave para evitar uma briga de elenco?
MAC: Você conhecer a personalidade de quem vai contratar. Se aquele perfil se enquadra dentro do São Paulo. Não que o São Paulo seja melhor que ninguém, ou pior. Tem um perfil, um estilo. O São Paulo é assim, joga desse jeito. O São Paulo gosta de pessoas dessa forma.
Layla Reis: Devido ao momento o site tem defendido a contratação de um Superintendente boleiro, qual a sua sugestão com relação a nomes?
MAC: Se eu falar isso, estarei tirando alguém do São Paulo. E eu não faço isso. Eu vejo pessoas que tem uma liderança espontânea, absurda, para lidar com jogador. E eu vou dizer um que não tenho medo de errar. O Careca. Ele é um cara que foi na seleção como auxiliar pontual e cativou todo mundo. Eu nem deveria dizer isso. Mas, ele chegou no Willian e disse; ‘É assim que faz’. E o Willian sorriu. Aquela coisa espontânea, verdadeira, de quem foi, de quem fez, de quem não deve nada para ninguém. Ele é um cara que chega ali e domina o ambiente. Na base da espontaneidade, não da irreverência. Por que ele é um cara muito sério, como eu, brincalhão, mas sério. E na hora do sofrimento, está junto!

https://www.youtube.com/watch?v=gyGcOqyo630
Layla Reis: O que aconteceu para que o São Paulo deixasse de ser modelo de gestão desde sua saída. Atualmente, qual o clube que possui um modelo de gestão a ser seguido?
MAC: O que aconteceu? Se você pegar a entrevista que dei. Na minha saída, em janeiro de 2010. Que foram cautelosas para não expor a Instituição. Quando eu dizia; ‘Eu não consigo mais influir. Eu não sou uma fraude. E, não vou ficar aqui por ficar’. Pelo amor que tenho pelo São Paulo, a convivência diária do CT, a amizade com os atletas, com as pessoas que trabalham lá; funcionários, cozinha, lavanderia, segurança. Enfim, um convívio extremamente harmonioso com todos. Todos iguais. Jogador para mim era igual à moça que cuidava da roupa. E sabíamos os problemas de cada um, discutíamos e tal.
Num determinado momento começaram algumas mudanças que não eram normais; saída do Muricy, a chegada do Ricardo Gomes. Que foi excelente. Foi muito bem indicado o Ricardo Gomes. De repente, o Ricardo faz uma campanha tecnicamente com um futebol que não era bonito. Mas, entramos na Libertadores. E, perdemos a Libertadores no ‘fio da navalha’. Naquele jogo contra o Internacional de Porto Alegre, que a bola sobrou, o cara fez o gol, o Ricardo Oliveira quase fez o 3x1, estaríamos, de novo, no Mundial. Por que a equipe finalista era mexicana. Depois disso, o Ricardo (Gomes) foi demitido. ‘Aí, trouxeram o treinador da base, para ser o treinador do São Paulo’. Neste momento, percebi que perdemos o rumo pioneiro e sério de se fazer futebol.
Layla Reis: Então, foi naquele momento? Quando subiram o Baresi?
MAC: Sim, naquele momento.
Layla Reis: O Senhor tentou influenciar de alguma forma?
MAC: ‘Já vieram com o prato pronto’. E era o Baresi. Nada contra o Baresi. Não tem nenhuma responsabilidade nisso. Ele foi apenas o ator daquele momento. Mas, a vontade de trazer Cotia para dentro do CT da Barra Funda, de uma só vez. Talvez pelo prazer de ver aquilo, que eu teria também. Claro, que eu queria isso. Mas não daquela forma. Aquela forma era intempestiva, era fora de qualquer programação era fora de qualquer propósito. O Baresi veio. E aquilo copiava o que o Corinthians havia feito com o Zé Augusto, quando caiu em 2007. E, eu pensava; ‘Meu Deus, isso não vai dar certo!’.
Eu escrevi uma carta para o meu querido Juvenal. Claro, tive minhas divergências com ele. Mas sempre foi muito querido. Tentei demonstrar que aquilo não poderia dar certo. E não deu. Então, para amenizar aquela situação trouxeram o Paulo César Carpegiani. Houve aquele problema com o Rivaldo. E essa foi à última vez que participei de algo com o São Paulo. Naquele jogo contra o Avaí, no outro ano. Pediram minha ajuda, pois eu tinha trabalhado por lá naquela Copa do Brasil. Aquele jogo eu estava, e foi minha última participação no São Paulo, em que eu pude consertar arrumar alguma coisa. Eu já estava fora do São Paulo. Mas, foi naquele momento.
‘Eles trouxeram o Carpegiani, um cara que estava fora de mercado. Um cara ótimo. Mas, para corrigir um erro que já estava previsto’. Igual ao Nelsinho que chegou ao Corinthians para fatalmente cair naquele ano. Então, me pareceu que estavam copiando uma história de insucesso.
Layla Reis: O Juvenal acreditava naquilo? Ele acreditava no Carpegiani, Baresi?
MAC: Não acreditava. O Juvenal acreditava naquilo que ele queria que desse certo. E como o Baresi que ele queria que desse certo, não deu. Ele trouxe um para corrigir. E corrigiu como pôde.
No outro ano, ele teve aquele problema com o Rivaldo. O Rivaldo havia sido oferecido dois anos antes. Eu levei o nome do Rivaldo. Dois anos antes, eu conversei com o Rivaldo. E ele garantiu; ‘Eu vou para o São Paulo’. Ele estava muito bem. Depois de dois anos trouxeram o Rivaldo. Naquela época, dois anos antes, não interessava, ‘estava velho’, depois, trouxeram o jogador. Começaram várias incoerências, E eu pensei que daquela forma não dava mais; ‘Vai pelo caminho errado’, ‘Vou sair’, ‘Siga o seu caminho que eu vou seguir o meu’.
Mas, continuei ajudando. Tanto que o Aloisio que foi contratado. Não que tenha sido uma indicação minha. Mas eu falei; ‘Juvenal, contrata esse rapaz. Eu vi jogar na Chapecoense, no Figueirense. Ele é excelente jogador. Lembra o Kléber (Gladiador). Tem o estilo, só que não é expulso’. Ele disse conhecer o atleta. E, enfim, ele trouxe o jogador. Que foi bem, e acabou vendido. Foi o último palpite que eu dei. Naquele momento, percebi que não havia mais o que fazer no São Paulo.

https://www.youtube.com/watch?v=IaUe2zWqETI
Layla Reis: O Juvenal perdeu a mão?
MAC: ’Ele apostou em fichas erradas’. Então, teve a passagem da Diretoria de Futebol para o Adalberto Batista, que não é má pessoa. Mas, não tinha um conhecimento de futebol como talvez seja necessário. E com o apoio pleno e intempestivo em algumas ações.
Layla Reis: Como no afastamento dos profissionais da preparação física (Dr. Turíbio, Carlinhos Neves e Luís Rosan)?
MAC: Sim, envolve todas as mudanças. ‘Vou fazer a minha equipe’. Eu acho justo montar a própria equipe. Mas, é preciso ter conhecimento para montar um novo time. Imagine, me convidam para ir para a Fórmula 1, eu chego na Ferrari, e falo; ‘Vou montar meu time’. ‘Mas você já trabalhou numa equipe de Fórmula 1? NUNCA!’ – ‘Vou arrumar ai no mercado’. A chance de errar é muito grande. Nisso foi se perdendo a nossa capacidade de organização. E passamos a nos equiparar aos outros. Tentativa, erro, tentativa, erro. Corrige o erro. Faz outra tentativa, corrige o erro. Isso é assim há cinco anos. Corrigindo erros, e se gabando por corrigir um erro.
Em breve a parte final da entrevista, aguarde!
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