“Onde está o 18?” Irritado e com o nariz sangrando, Lugano procura pelo jogador que o acertou. “Ele dizia: ‘18, eu vou te matar’”, conta o ex-atleta Fabiano, que defendia o Guarani e se chocou com o uruguaio. O lance virou símbolo da raça tricolor e até camiseta. (Foto: Arquivo/Diário SP)
Hoje é dia de o são-paulino dar o sangue pelo time. Para se manter vivo na luta pela classificação na Copa Libertadores, o Tricolor precisa de um resultado positivo contra o Trujillanos, às 19h30, na Venezuela.
Um exemplo de como se doar ao time estará em campo. Campeão da Libertadores e do Mundial em 2005, Lugano conquistou a torcida com as demonstrações de entrega ao clube.
Tal devoção do jogador uruguaio ao São Paulo virou até estampa de camiseta, inspirada em um lance ocorrido durante duelo com o Guarani, pelo Paulista de 2006. Em uma disputa com o atacante Fabiano, o gringo levou a pior e quebrou o nariz. Na hora, nem sequer deu bola para o sangue que jorrava do local atingido. Queria tirar satisfação com o adversário, pois imaginava ter sido vítima de agressão. Mesmo com a fratura, continuou em campo.
“Não dei cotovelada. Abri os braços para me defender, ele subiu e bateu o rosto no meu braço”, conta Fabiano, que, já naquela época, acabou inocentado por Lugano, que reviu o lance pela TV e não percebeu, de fato, maldade na jogada.
“São coisas do futebol. Às vezes, você dá uma chegada mais forte e tem de morrer em campo. Aprendi no futebol a tratar todo mundo com respeito e resolver dentro de campo, para tentar formar o maior número de amigos”, diz o ex-atleta, que se lembra da reação do são-paulino. “Ele era um cara muito ríspido nas divididas. O pessoal do Guarani ainda se lembra dele falando: ‘Cadê o 18, vou te matar!’”, diverte-se Fabiano, hoje dono de uma academia em Araraquara e de uma escola de futebol em Américo Brasiliense, no interior do estado.
Manto
Muitos torcedores devem acompanhar o jogo com a camiseta de Lugano. A peça com a imagem dele sangrando esgotou rapidamente na loja oficial do clube. Por isso, teve de ser produzido um novo lote, nas cores vermelha e branca.
“Participo de grupos de discussão de ex-jogadores e todo mundo me manda foto desta camisa. O pessoal brinca comigo, que deveria colocar ‘made in Fabiano’ (“feito por Fabiano”, em tradução livre). Se ganhar uma, vou usar”, garante o ex-atacante, que não descarta a possibilidade de um dia reencontrar o uruguaio: “Tentamos o contato, mas não deu certo”.
ENTREVISTA COM FABIANO, EX-JOGADOR:
DIÁRIO_ Por que você parou de jogar futebol profissionalmente tão cedo, aos 30 anos?
FABIANO_ Passei por dez cirurgias no joelho, sendo duas no esquerdo e oito no direito. Sofri muito com dor. Tenho artrose grande, vinha na raça e jogando porque precisava pagar as contas. Fiz isso até 2014 e parei, pois não aguentava mais.
Mesmo sem jogar, ainda sente dores nas pernas?
Se ficar muito tempo em pé, eu sinto dor. Nem de brincadeira eu consigo jogar mais. São três semanas para se recuperar depois de uma partida.
Como foi ficar longe do futebol por causa das lesões?
Fiquei sem assistir aos jogos por quase dois anos, porque me sentia mal. Por causa de uma lesão mal cuidada pelo Santos, tudo isso virou uma bola de neve. Eu tinha um futuro promissor. Só o Rene Abdalla (médico) que descobriu o que tinha de ser feito e conseguiu fazer um excelente trabalho.
Ficou com alguma mágoa?
A mágoa que tenho do futebol é que o Santos poderia ter me tratado com carinho. Quando tive a primeira lesão, em um jogo contra o São Paulo em 2006, fiquei quase todos os dias até 2010 sentindo dor.
Por que voltou a ver futebol?
Fui levar o meu pai para fazer um exame no Hospital do Câncer de Barretos e vi uma menina com a idade da minha filha lá. Existem coisas muito piores do que a dor que eu sinto.
Acha que o Lugano vai dar certo no São Paulo?
Como não tenho mágoa, espero que vá bem. O futebol está carente nesta posição e o São Paulo precisa estar no topo para se ter um campeonato bonito.
São Paulo se apega à raça do zagueiro Lugano
Tricolor precisa de um resultado positivo contra o Trujillanos, nesta quarta, às 19h30, na Venezuela
Fonte Diário de SP
16 de Março de 2016
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