Fidelidade rara

Fonte Estadão
Sujeito que se liga em futebol se mete a valentão, mas no fundo é um babão. Pode reparar: o fanático por um time bate no peito, xinga todo mundo, provoca, arruma discussão, parte pra briga, coloca os maus bofes pra fora por qualquer desfeita. Basta o time fazer um gol, e se derrete; um drible bem dado, e bate palmas feito menino; título conquistado, e se comove até a alma. Vem a despedida de um craque... e chora.
Exagero? De jeito nenhum. Teve muito marmanjo com olhos cheios d’água na noite de sexta-feira, no Morumbi, na festa que marcou a aposentadoria de Rogério Ceni. Acha sonsa tal reação? Jamais. Bonito ver homem barbado, adolescente, criança, vovô, vovó, tiazinha, mocinha se emocionarem pelo jogo de bola. Ainda mais por quem merece reverência e respeito gerais da galera. Como foi tocante ontem a cerimônia de inauguração do busto de Marcos no Palestra.
Anteontem, o estádio lotou para homenagear o goleiro que, por mais de duas décadas, reinou sob as traves tricolores. E, acima disso, honrou o manto com defesas memoráveis e gols, muitos gols, mais do que punhados de centroavantes badalados. Rogério encarnou o goleiro-linha, figura que – assim se imaginava – existisse apenas nas peladas de rua ou dos antigos campinhos de terra.
No futebol, são raros os exemplos de goleiros que tenham chute calibrado em cobranças de faltas e pênaltis. Assim como esporádicos os exemplos de fidelidade a uma só camisa. Nos dias que correm, trata-se de fenômenos. No caso da permanência na mesma casa, do começo ao fim da carreira, fica até a desconfiança? Será que ele é bom mesmo? Ou não passa de enganação? Se fosse bom, trocava de equipe ou se mandava para a Europa ou China...
Não há preconceito, se ocorrer esse pensamento, embora exista distorção. Como boleiros não param no lugar, em ciranda cigana, normal considerar “estranho” aquele que mantenha constância. Aliás, hoje em dia se vê com desconfiança quem percorra a mesma trilha por muito tempo. O que uma vez era prova de lealdade e dedicação virou sinônimo de comodismo e estagnação. Vai entender certos modismos...
Pois Rogério Ceni e Marcos conseguiram passar ao largo de padrões de conduta modernosos. E, ao estilo dos funcionários de outras eras, identificaram-se com a “firma”, doaram-se, e em troca fizeram fama e fortuna. Relação profissional, mas não só. O são-paulino desde os anos 90, e por mais de 1200 vezes, encabeçou a escalação do time. Não foi por acidente ou apenas jogada de marketing que se tornou, para os fãs, o M1t0. Epíteto pra lá de acertado. O palmeirense, por garra, defesas memoráveis, sinceridade e espontaneidade, virou “são Marcos”, licença poética, sem heresia a ritos católicos.
Há quem torça o nariz e ressalve que Rogério Ceni é ídolo, semideus, lenda, – para os são-paulinos e só para eles. Meia-verdade. Talvez não tenha cativado outras torcidas, como Marcos. Nem por isso, diminui a importância que tem para o futebol. De Rogério pode-se dizer que “fez história”, sem que a expressão soe lugar-comum desgastado. O mesmo vale para Marcos. Por justiça, ambos foram campeões mundiais em 2002.
Rogério Ceni também foi longevo, quer dizer, durou muito a aventura dele pelos gramados. Consequência de excelente formação física, e de empenho, treinos, cuidado com si próprio. Perfeccionismo, que para muita gente pareceu pedante. Taí, mais um estereótipo: quem se dedica à profissão é exagerado, puxa-saco, metido. Quando deveria arrancar elogios e servir de guia. Esmero no que se faz também anda meio fora de moda, é bem descartável.
Nesse aspecto, Marcos teve menos sorte. Sofreu com contusões, que o mantiveram muitas vezes à margem. Ainda assim foi gigante. Vida longa aos dois. E obrigado.
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