Aos 30 anos, Serginho não resistiu a uma parada cardiorrespiratória e morreu vitima de uma cardiopatia amiotrófica (Reprodução)
O relógio marcava 21h49, horário de Brasília, do dia 27 de outubro de 2004. No estádio do Morumbi, zona de sul de São Paulo. O cronômetro chegava aos 14 minutos do segundo tempo da partida entre o Tricolor Paulista e o São Caetano. Neste momento, tudo parou. Na área do goleiro Silvio Luiz, do Azulão, o zagueiro Serginho desabou. E para não levantar mais.
“Quando fui mexer no rosto dele, ele estava com a língua virada, respirando ofegante. Foi um desespero em campo. Foi horrível aquele momento”, relata o arqueiro, primeiro a prestar socorro ao jogador, ao FOXSports.com.br.
Aos 30 anos, o defensor não resistiu a uma parada cardiorrespiratória e morreu vitima de uma cardiopatia amiotrófica, menos de uma hora depois. A morte de Serginho resultou em mudanças importantes para a prevenção médica no futebol brasileiro. Desde então, a FIFA (Federação Internacional de Futebol), em decorrência também de outras tragédias similares em gramados ao redor do mundo, passou a exigir exames cardíacos para permitir a participação de atletas em competições oficiais.
Além disso, o desfibrilador passou a ser item obrigatório no cenário do futebol, assim como a permanência de ambulância dentro do estádio e com fácil acesso para uma saída – a Vila Belmiro, na cidade de Santos, por exemplo, chegou a ter que reformar um dos portões depois que um dos carros de socorro teve dificuldades para entrar no gramado.
“Infelizmente no Brasil só tomam providência depois que as coisas acontecem. Depois da morte do Serginho começaram a discutir sobre o assunto (saúde no futebol)”, lamentou Silvio Luiz.
A seriedade e as chegadas firmes dentro de campo contrastavam com o estilo de Serginho no dia-a-dia. “Era um cara maravilhoso, alegre, toda hora brincando. Era um cara que agitava o vestiário, toda hora tinha uma história diferente, uma piada diferente”, relembra Nairo Ferreira de Souza, presidente do São Caetano desde 1996.
Hoje treinador de goleiros do Olímpia, modesto clube do interior de São Paulo, Silvio Luiz revela uma convivência muito próxima com Serginho, ultrapassando os limites do campo. “A esposa dele tinha boa relação com a minha. A gente sempre estava junto, marcando churrasco, eventos. Foi muito difícil, tivemos que dar bastante apoio para a família”.
Da A para a D: morte de Serginho culminou em queda do São Caetano
Se no início do século 21 o São Caetano se mostrava como um time em ascensão (vice-campeão brasileiro em duas oportunidades, vice da Libertadores e campeão paulista em 2004), a segunda metade da mesma década apresentou uma realidade bastante diferente. E bem dura para seus torcedores.
O ano de 2004 começou com festa e terminou em choro para o São Caetano. No primeiro semestre, título do Campeonato Paulista – primeiro, e único, da história da equipe em um torneio de primeira divisão. No segundo, morte de Serginho, perda de 24 pontos e briga contra o rebaixamento no Brasileirão.
Desde então, o São Caetano nunca mais foi o mesmo. Em 2005, ficou na 17ª colocação no Brasileirão, apenas duas posições acima da zona de rebaixamento. No ano seguinte, no entanto, o que parecia inevitável aconteceu: o Azulão caiu para não mais voltar. Entre 2007 e 2012, a equipe se manteve na Série B, mas em 2013 a queda livre, que resultou na atual situação do clube, teve início. 19º colocado, o time do ABC foi rebaixado para a Série C, e na atual temporada caiu para a D, a última divisão do futebol nacional.
“Muitos jogadores perderam o tesão de jogar no São Caetano. Eles começaram a pedir para sair do clube. Eu fui um que saí. Depois dali, o São Caetano foi caindo. Não digo que foi tudo por causa disso, mas foi um fator que afetou bastante para chegar a essa situação”, explicou Silvio Luiz, que assinou com o Corinthians em 2006.
Suspenso do cargo por 720 dias acusado de ter omitido a informação de que Serginho tinha uma recomendação do Incor (Instituto do Coração) para não praticar mais atividades esportivas, o presidente Nairo Ferreira de Souza negou que a atual situação do São Caetano seja reflexo do ocorrido com o defensor. “Não tem nada a ver. Isso não passa de comentários. O futebol mudou muito, as coisas mudaram muito. Tem seus acertos e tem seus erros. Essa queda, esse desempenho, não é justificada pela morte do Serginho”.
10 anos depois da tragédia, o São Caetano tenta ressurgir das cinzas, tendo em Serginho sua inspiração para recomeçar. “Eu tirei a chuteira do pé dele no caminho do hospital. Acabei ficando com elas e agora elas estão em um quadro na nossa sala de troféus, como uma lembrança que a gente guarda do Serginho, uma homenagem”, relatou Nairo.
Para o futuro, algumas mudanças virão, e o São Caetano tentará reencontrar seu rumo. “Tem que voltar a ser o que era: um time modesto, com o pé no chão, que revela jogadores no mercado brasileiro. Tem que eliminar os medalhões. O São Caetano nos últimos anos, sempre buscando voltar para a primeira divisão, apostou em jogadores mais experientes, e a coisa não aconteceu”, completou Nairo.
10 anos sem Serginho: São Caetano luta contra o declínio pós-tragédia
Em outubro de 2004, zagueiro morreu durante uma partida do Brasileirão. De lá para cá, Azulão entrou em queda livre e hoje amarga a Série D
Fonte Fox Sports
27 de Outubro de 2014
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