Alguns jogadores, como Alexandre Pato, Ganso e Denílson, subiram de produção desde a sua chegada. Como você tem contribuído nesse processo?
R: No dia a dia, tento passar o exemplo prático aos mais jovens e aos outros jogadores. Treinando, trabalhando e me doando ao máximo para o time. Não estou aqui só de passagem. Voltei porque quero vencer e marcar esses meus seis meses no São Paulo. E eles entenderam isso. Apesar de tudo que já ganhei, de tudo que já conquistei, eu ainda tenho muito a dar e muita vontade de vencer no São Paulo.
Nos tempos de garoto, como em 2002, na seleção, os mais experientes também davam o “exemplo prático”?
R: Claro. A gente não via o Ronaldo dar carrinho, mas, muitas vezes, ele estava correndo atrás do zagueiro, recompondo e cumprindo sua função de marcar.
Em relação ao Alexandre Pato, você o tem aconselhado?
R: Fora do campo, converso mais sobre assuntos gerais. Não fico falando de tática e essas coisas. Minha amizade com o Pato vem desde a época do Milan, mas falamos pouco de futebol, não costumo dizer algo específico a ele, a não ser dentro de campo. Espero que ele mantenha esse bom momento da carreira, porque é um jogador muito importante para nós.
Em 2003, você saiu do São Paulo questionado pela torcida. a cobrança, até com algumas vaias, por não ter conquistado um título de expressão o chateou?
R: De forma alguma saí chateado com o São Paulo. Tanto é que eu voltei e fui bem recebido. Escolhi retornar ao clube, vim de braços abertos. Não houve mágoa nem da minha parte nem de parte dos torcedores que me vaiaram quando eu saí.

Kaká em sua primeira passagem pelo São Paulo | Crédito: Ricardo Corrêa
Você se cobra por levantar um troféu de peso pelo clube?
R: Meu vínculo com o São Paulo vai além do campo e dos títulos. É algo institucional. Independentemente do que eu fizer ou não, sou um jogador formado nas categorias de base do clube que chegou ao topo do futebol mundial. Esse é meu “link” com o São Paulo, hoje e sempre.
Caso o São paulo se classifique para a Libertadores, você pode permanecer por mais tempo?
R: Eu ainda não penso nisso. Só estou pensando em fazer o melhor trabalho possível pelo São Paulo até dezembro. Depois, vai chegar o momento de pensar nos meus três anos de contrato com o Orlando [City] e, posteriormente, na minha vida pós-Estados Unidos. O momento agora é de pensar no São Paulo.

Kaká estourou no Rio-São Paulo de 2001, marcando dois gols na final contra o Botafogo | Crédito: Rogério Pallatta
A Libertadores é uma competição que você nunca disputou. Não seria um bom pretexto para convencer o dono do Orlando City a prolongar o empréstimo?
R: Como eu disse, estou pensando no agora. No fim do ano, com Libertadores ou não, campeão brasileiro ou não, a gente vê o que acontece. Aí é outra história.

Em 2015, Kaká defenderá o Orlando City, dos EUA | Crédito: Divulgação/Orlando City
Traçar metas sempre foi uma praxe em sua carreira. Em 2001, você nos listou dez objetivos e em pouco tempo os alcançou. Ao avaliar essa trajetória, o sentimento é de dever cumprido?
R: Não é um sentimento de dever cumprido, mas fico feliz de ter conseguido alcançar a maioria das metas que tracei. Eu gosto de trabalhar dessa forma, com objetivos definidos, porque sempre me motivam.
E agora, aos 32 anos, quais são suas metas?
R: Hoje minhas metas são mais genéricas, não tão específicas como no começo da carreira. Eu me motivo pela vitória, por ganhar, por evoluir.

De volta ao São Paulo, Kaká tem o desejo de conquistar o título brasileiro | Crédito: Renato Pizzutto
O quarteto ofensivo do São Paulo...
R: Essa história de “quarteto” a gente deixa para vocês, da imprensa, ficarem brincando. Dentro de campo, pensamos em 11 jogadores. Fora, no grupo todo. Ninguém aqui fala em quarteto. O principal é o coletivo. Quarteto só é fundamental se ajudar o coletivo a vencer os jogos.

Em 2002, Kaká conquistou o Penta | Crédito: Revista Placar
Acredita que você, Ganso, Pato e Alan Kardec podem jogar juntos também na seleção?
R: Isso depende do nosso desempenho. Eu encaro a seleção como um prêmio por aquilo que o jogador faz no clube. Se eu jogar bem pelo São Paulo, tiver uma sequência e a equipe conquistar resultados, posso ser premiado novamente.

Em 2006, ao lado de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano, decepcionou | Crédito: Reprodução
Depois da Copa de 2010, você manteve contato com o Dunga?
R: Conversei com o Dunga algumas vezes. Ele passou por um problema familiar, com a doença do pai dele, e eu acabei entrando em contato por causa disso. Depois, ele me mandou algumas mensagens quando eu fui para o Milan. Nos encontramos só uma vez, casualmente, no aeroporto. Ele estava indo para Porto Alegre e eu, para o Rio. Temos uma boa relação.

Em 2010, teve nova queda nas quartas | Crédito: Alexandre Battibugli
O retorno dele ao comando é um ponto a seu favor?
R: Mais uma vez, seleção é um prêmio. Depende do que eu fizer no São Paulo. Penso primeiro aqui. Um passo de cada vez.
Você terá 36 anos em 2018. Dá para jogar uma Copa do mundo com essa idade?
R: Eu penso no presente. Daqui a quatro anos, não sei como eu vou estar ou como vai estar a seleção. Antes de o Brasil chegar à Copa, tem de passar pelas Eliminatórias. Meu objetivo é ter continuidade e regularidade no São Paulo. Depois, posso pensar em seleção.
Foi prejudicial à sua carreira ter disputado parte da copa de 2010 com uma lesão grave no joelho?
R: Não lamento nada. Lutei, me esforcei e me sacrifiquei porque eu queria jogar aquela Copa. Eu sabia da minha responsabilidade na seleção e fiz o possível para estar ali. Não me arrependo de nada.
Por ter um contrato curto, o risco de lesão em um calendário de jogos apertado como o brasileiro o preocupa?
R: Há bastante tempo não tenho lesões. A que eu tive no jogo contra o Goiás foi uma pancada [na panturrilha direita]. Todo jogador está sujeito a isso, a qualquer momento. Eu estou muito bem fisicamente. Por isso não me preocupo com lesão.
Suas arrancadas características tornaram-se menos comuns. Você teve de adaptar o estilo de jogo por causa das seguidas contusões que sofreu?
R: Não por uma questão física. Mais por entender melhor o jogo e fazer as melhores escolhas. Antes, eu pegava a bola e saía arrancando. Era o que eu entendia como melhor opção. Hoje eu já sei o momento certo de usar a velocidade para o time, de dar uma arrancada, de segurar o jogo. Esse amadurecimento em campo me ajudou.
O Kaká de hoje é mais inteligente que o Kaká de 2007, quando foi eleito o melhor jogador do mundo?
R: Dentro de campo, minha visão de jogo é muito melhor. Tática, técnica e até fisicamente sou mais completo do que antes.

Jogando no Milan, Kaká foi o último jogador eleito o melhor do mundo pela Fifa | Crédito: Getty Images
Antes de anunciar sua contratação, Carlos Miguel Aidar, presidente do São paulo, disse que você era a cara do São Paulo por ser “alfabetizado, bonito, ter todos os dentes na boca, falar bem”... Esses atributos realmente o aproximam do que o torcedor são-paulino almeja como ídolo?
R: O que me aproxima do torcedor é o vínculo que eu tenho com o clube. Comecei a jogar no São Paulo com 8 anos e saí com 21. Cresci no clube, conheço bem o clube e as pessoas do clube. É uma ligação muito maior que títulos ou a aparência.
A fama de “bom moço” é exagero ou reflete sua personalidade?
R: A imagem que construíram de mim foi feita de fora para dentro. É um processo da mídia, eu não moldei nada. Se as pessoas me veem dessa maneira, é porque eu sou assim. Mas estou mais maduro, não tenho mais 18 anos. Isso ajuda a mudar a imagem de bom moço para a de bom adulto, bom homem.
Quando eu comecei a jogar no São Paulo, eu fazia capa para a revista CAPRICHO, voltada para as adolescentes. Agora é muito difícil que isso aconteça. O momento é outro.

Galã das meninas, Kaká já foi capa da Capricho | Crédito: Reprodução
A barba é um sinal de que aquela fase de ícone teen ficou para trás?
R: Hoje sou um jogador experiente, com 11 anos de Europa nas costas. O que mudou foi esse período fora do país. Me tornei o melhor jogador do mundo, campeão mundial com a seleção, campeão mundial com o Milan… Toda essa bagagem acrescentou muito à minha imagem como atleta.
Em seu centésimo gol pelo Milan e no gol diante do Goiás, na reestreia pelo São Paulo, você não repetiu o gesto característico em menção a Deus nas comemorações. Isso coincide com sua saída da igreja Renascer em Cristo, em 2011?
R: Não, eu continuo fazendo, repito esse gesto sempre que possível. No jogo contra o Goiás, a gente estava perdendo de 2 x 0. Então eu corro para pegar a bola do gol, comemoro, bato a mão no peito e só depois levanto as mãos pro céu agradecendo. Não vou deixar de fazer.

Jogador teve passagem pelo Real Madrid, mas sem sucesso | Crédito: Getty Images
Você frequenta outra igreja?
R: Não frequento igreja nenhuma. Participo de um grupo de estudos bíblicos semanais com um pastor. Sou o único jogador entre os participantes dos encontros.
Já sofreu preconceito por ser evangélico e manifestar publicamente sua crença?
R: Nunca senti nenhum tipo de restrição em relação a isso.

Evangélico, Kaká faz questão de demonstrar sua fé | Crédito: Ricardo Corrêa
Até que ponto a religiosidade interfere em um grupo ou no desempenho do jogador?
R: Futebol não tem receita. “Ah, se fizer isso vai dar certo, se fizer aquilo vai dar errado...” Milhares de jogadores mantêm seus rituais, manifestam suas crenças, enfim, fazem o que bem entendem. Se respeitar os regulamentos da Fifa, têm mesmo é de continuar demonstrando sua fé, o que é muito importante. Ter valores mais radicais em alguns momentos ajuda o jogador. Isso é um suporte, mas não faz diferença no resultado.
As associações com os bispos da Igreja Renascer, que foram investigados por lavagem de dinheiro e estelionato, afetaram sua imagem pelo fato de pagar o dízimo à instituição?
R: De forma alguma. Isso não me prejudicou. Sempre demonstrei minha transparência, minha honestidade. As pessoas me conhecem por causa disso.
Qual o seu grau de envolvimento com o Bom Senso F.C.?
R: Meu envolvimento com o Bom Senso é de amizade com as pessoas da liderança. Não tenho nenhuma ligação direta com o movimento.
Já lhe propuseram um engajamento maior na causa?
R: Eu tive duas reuniões com eles para entender melhor como funcionam as coisas, como eles trabalham, pelo que eles estão lutando. São boas ideias, o calendário é bem puxado mesmo, mas hoje minha ajuda não é específica. Tudo que for para melhorar a organização e o planejamento do futebol, eu vou apoiar…
E por que você não quis integrar o movimento?
R: Por uma questão pessoal. Não quero me envolver tão diretamente por enquanto.
Há alguma discordância com as exigências do grupo?
R: Não, nenhuma discordância. As medidas do Bom Senso são para melhorar o futebol. Só não acho que minha presença seja tão essencial nesse momento. Preferi que fosse assim.

18 mil torcedores estiveram presentes na apresentação do craque brasileiro em Orlando | Crédito: Reprodução Instagram
FICHA TÉCNICA
Ricardo Izecson dos Santos Leite
32 anos (22/4/1982)
Gama (DF)
Clubes: São Paulo (99-03 e desde julho de 2014)
Milan (03-09 e 13-14)
Real Madrid (09-13)
Orlando City (a partir de 2015)
Títulos:
São Paulo: 1 Torneio Rio-São Paulo (2001)
Milan: 1 Italiano (2004), 1 Supercopa da Itália (2004), 1 Liga dos Campeões (2007), 2 Supercopas da Uefa (2003 e 2007) e 1 Mundial de Clubes (2007)
Real Madrid: 1 Copa do Rei (2011), 1 Espanhol (2012) e 1 Supercopa da Espanha (2012)
Seleção Brasileira: 1 Copa do Mundo (2002) e 2 Copas das Confederações (2005 e 2009)
Honrarias:
- Bola de Ouro da PLACAR (2002)
- Melhor jogador do Italiano (2004 e 2007)
- Melhor jogador do mundo (2007)
- Melhor jogador da Europa (2007)
- Artilheiro da Liga dos Campeões (2007)
- Melhor jogador do Mundial de Clubes (2007)
- Melhor jogador da Copa das Confederações (2009)

Vencedor da Bola de Ouro em 2002, Kaká está na briga pelo prêmio novamente | Crédito: Alexandre Battibugli
AS DEZ METAS DE KAKÁ
Em 2001, ele revelou seus Objetivos à PLACAR. Em apenas dois anos, cumpriu todos eles
1 - Voltar a jogar futebol (depois da lesão na vértebra da coluna)
2 - Subir para os profissionais
3 - Figurar entre os 25 que fazem parte do elenco durante os campeonatos
4 - Brigar por uma vaga entre os 18 que sempre se concentram para os jogos
5 - Ganhar uma vaga de titular
6 - Jogar o Mundial sub-20
7 - Manter-se como titular do São Paulo mesmo após o Mundial
8 - Ser convocado para a seleção principal
9 - Jogar na seleção principal
10 - Transferir-se para algum grande clube da Itália ou da Espanha