Renê Simões pede mais investimento dos clubes na base
É impossível explicar o êxodo de jogadores brasileiros sem citar o interesse financeiro que norteia os clubes. Depois da década de 1980, quando ainda conseguiam competir no mercado com os europeus, os clubes brasileiros viram o número de transferência aumentar e chegar ao ápice entre 2010 e 2013. De acordo com a Fifa, 1.530 jogadores brasileiros foram vendidos para o exterior no ano passado.
“Para fazer caixa, os clubes deixam de investir e vendem. A vontade de melhorar a base é grande, mas a possibilidade é pequena. Por quanto tempo o Vasco vai manter o Thalles (atacante), por exemplo? O Vasco já fez isso com o Philippe Coutinho. E agora o Santos tem o Lucas Lima. Com todas as dificuldades financeiras que o clube tem, como vai segurá-lo? Não tem jeito. É uma grande oportunidade que o clube vê em começar a organizar o caixa”, disse René Simões ao iG.
Para ilustrar os exemplos citados por ele, vale o caso de Philippe Coutinho, hoje no Liverpool (ING), cujo valor aumentou 800% desde que deixou o Brasil com apenas 18 anos. Quando promovido a profissional no Vasco, o meia-atacante valia cerca de R$ 3,5 milhões e acabou vendido para a Internazionale de Milão por R$ 13,15 milhões. O valor de mercado dele atualmente gira em torno de R$ 69,29 milhões, segundo o site Transfermarkt.

Jon Super/AP
Philippe Coutinho foi comprado pelo Liverpool por mais de R$ 31 milhões
“O Brasil tem uma capacidade enorme para ter talentos, mas é cada vez mais difícil os clubes terem condições financeiras de desenvolver um trabalho na base. Temos 20 clubes na Série A e 20 na Série B que conseguem competir em bom nível, mas está cada vez menor o espaço para formar atletas. E é muito difícil evitar que isso continue”, apontou Thiago Scuro, diretor executivo da Red Bull Brasil.
“O Diego Costa estava ainda em formação quando foi recrutado por um clube pequeno de Portugal (Sporting Braga). É um processo complicado de controlar, e essas situações não deveriam nos incomodar. Cada vez mais temos atletas na base com reconhecimento muito cedo, mas que acabam tendo dificuldades de se manterem competitivos no profissional. Eles sofrem por não ter o mesmo nível de ambientação e não conseguem evoluir. Por outro lado, temos jogadores que não são tão badalados na base conseguem se sustentar”, completou ele.
Naturalizado espanhol, Diego Costa foi captado quando jogava pelo Barcelona de Ibiúna, então na quarta divisão de São Paulo, até ser vendido para o Atlético de Madri por R$ 2,78 milhões em 2007. Exatos sete anos depois, o atacante foi negociado pelo clube espanhol por R$ 122 milhões, um lucro de mais de R$ 119 milhões.
Para o empresário Wagner Ribeiro, é natural que os clubes deixem de ganhar dinheiro com jovens atletas. “Posso citar o caso do Hulk. O Vitória recebeu dinheiro por ele, um valor pequeno se comparar à venda do Porto para o Zenit (por R$ 129 milhões). Mas é isso que acontece. Quando o jogador ainda é uma promessa, custa barato porque, como o próprio substantivo diz, é uma promessa. Você não sabe se (o jogador) vai virar ou não. Por mais absurdo que possa parecer, o clube tem muitas dívidas e, para administrar, acaba vendendo o jogador”, defendeu.

Rafael Ribeiro/CBF
Alexandre Gallo participará do encontro na sede da CBF
?CBF ainda não exige maior investimento no futebol amador
Embora mantenha a seleção de base, exija certificado dos clubes e organize duas competições (Copa do Brasil Sub 17 e Sub 20), a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ainda não trata a formação de jogadores como ponto importante para a longevidade das equipes. O surgimento de profissionais especializados no assunto, por outro lado, anima.
“Eu acho que a base vem melhorando a cada ano. Ela ainda carece de uma filosofia implantada pela CBF que seja seguida por todos os clubes. Acho que o (Alexandre) Gallo está começando isso. Não vejo a necessidade de centralizar o poder na CBF, mas seria importante para as questões estratégicas e para a capacitação do profissional”, sugeriu Felipe Ximenes, diretor executivo de futebol do Flamengo.
Thiago Scuro concorda com a opinião do colega. “Pode haver uma responsabilidade da CBF em discutir, ensinar e aprender, algo que está acontecendo gradativamente. Pode pensar em uma carga horária maior nos cursos para formar os profissionais, porque cursos de dois e três dias não conseguem dar essa bagagem”.
Outro ponto bastante questionado é a Lei Pelé, que, embora tenha apresentado mais vantagens ao clube formador após reestruturação, terminou com o “passe” e abriu caminho para a fuga de talentos e maior participação de agentes.
“A Lei Pelé precisa ser reestruturada. O primeiro contrato com o garoto aos 16 anos é ruim, porque essa idade não é a linha divisória para saber se ele vai ser jogador ou não. Acredito que a idade ideal é 19, momento em que se define se ele vai seguir a carreira profissional ou não. Tem de se repensar tudo. É necessário ter paciência com esses jogadores e não ter a velocidade de torná-los ídolos no clube. Tem de ter tempo para amadurecer. Ninguém sai da universidade e constrói pontos sem erros”, argumentou René Simões.
Na próxima segunda-feira, a CBF organiza o terceiro encontro técnico das categorias de base, projeto iniciado por Ney Franco e pelo próprio René Simões. Durante o evento, serão debatidos o calendário e competições para a categoria. É um primeiro passo, embora muito curto, rumo a uma reestruturação. E, até que a mudança seja para valer, caberá aos clubes ao menos ter mais paciência. Se é que se pode pedir isso.