Belo Horizonte, 9 de julho de 2000, segunda partida da decisão da Copa do Brasil.
Depois de empatar no Morumbi por 0 a 0, o São Paulo saíra na frente do Cruzeiro no Mineirão com Marcelinho Paraíba, levara o empate de Fábio Júnior, mas ainda assim, ia conseguindo o título graças ao gol marcado fora de casa.
Soberano no início da década de 1990, o Tricolor Paulista assegurava ali seu primeiro troféu de grande expressão desde o bi mundial de 1993, além da volta à Copa Libertadores, xodó da torcida, depois de sete anos de ausência.
Nos acréscimos da etapa final, o volante Axel recuou mal bola para o zagueiro Rogério Pinheiro, que perdeu na corrida para o meia-atacante Geovanni, cometeu falta na entrada da área e como era o último homem, foi expulso.
Os momentos que sucedem este lance estão entre os mais traumáticos da história recente do São Paulo Futebol Clube.
"O são-paulino lembra disso com tristeza. Outro dia, estava na minha cidade - Acaiaca, Minas Gerais -, e um são-paulino me disse, ‘poxa, Geovanni, essa foi uma das maiores tristezas da minha vida'. Foi um gol que mudou minha história, e a única coisa que nunca podem tirar do ser humano é a história", lembrou em entrevista ao ESPN.com.br Geovanni, o responsável pela ferida aberta no peito dos torcedores tricolores.
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Geovanni é puxado por Rogério Pinheiro no Mineirão
Ele mesmo cobrou a falta cometida por Rogério Pinheiro e com um chute rasteiro, por baixo da barreira, bateu o outro Rogério, o Ceni, dando ao Cruzeiro o tricampeonato da Copa do Brasil.
"Jogos emocionantes como esse são poucos, não sei se vai existir mais. Foi um baque muito grande quando tomamos o gol, e o Marco Aurélio - então técnico do Cruzeiro - foi muito ousado naquele dia. O time terminou com Müller, Fábio Júnior, Oséas e eu na frente. Sabia que seria uma tristeza muito grande perder uma final com 85 mil pessoas no Mineirão. E para mim seria em dobro porque nesse dia meu pai estava na arquibancada e era seu aniversário. Dediquei o gol para ele."
Ironicamente, ao fazer a alegria de milhões de cruzeirenses, inclusive do seu pai, Geovanni puniu uma torcida da qual um dia também fez parte.
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Brasileiro e o argentino Solari Solari em Barça x Real
"Eu gostava muito do São Paulo. Na época do Raí, do Cafu, 1992, 1993, foram campeões mundiais, o próprio Müller, que depois jogou comigo no Cruzeiro, fez história lá, Palhinha, Ailton, Ronaldo Luís, Vítor, Gilmar, sempre tive um carinho muito grande pelo São Paulo. Foi um dos melhores times que já existiu na história do futebol brasileiro."
"Aliás, eu tive oportunidade de ir duas vezes pra lá. Em 2000, depois da Copa do Brasil e se não em engano, em 2001. Foram dois anos seguidos que teve tratativas para eu poder ir pro São Paulo, e o Cruzeiro não quis liberar", revela o meia.
Geovanni deixou de ir ao Morumbi para JOGAR no Camp Nou. Contratado por 18 milhões de euros, chegou ao Barcelona com pompa, ao lado da promessa argentina Javier Saviola e do compatriota Fábio Rochemback, ex-volante do Internacional e da seleção brasileira. Mas aquela Barça ainda estava longe de se tornar novamente um time temido no mundo todo.
"O Barcelona, infelizmente, é um clube onde a política é muito forte. Quando eu cheguei, a última liga europeia tinha sido conquistada havia quase dez anos e existia uma pressão muito forte, o clube estava sofrendo muito. Hoje, é mais tranquilo, mais estruturado. Agora, vejo que fiz o caminho inverso, primeiro fui pro Barcelona e depois pro Benfica. Peguei o Benfica dez anos sem título, fomos campeões lá e a história do clube mudou. Se vou primeiro pro Benfica e tenho uma adaptação melhor, seria diferente."
Além do sucesso no Benfica, por quem venceu uma Taça de Portugal, um Campeonato Português e uma Supertaça de Portugal, Geovanni se orgulha por ter participado do início da revolução de um novo grande europeu.
"Fui o primeiro brasileiro a jogar no Manchester City. O dono na época - Thaksin Shinawatra, ex-primeiro ministro da Tailândia -, investiu bem, mas não tanto quanto esse dono agora - o Abu Dhabi United Group. O City estava acostumado a apanhar direto do Manchester United, a perder dos times em casa fácil. Cheguei, depois veio o Elano e no primeiro clássico, ganhamos do United lá dentro. Eu fiz o gol. A história do City começou a mudar a partir dali. Fazia 18 anos que o City não ganhava do United. Fui assistir a um jogo lá um tempo atrás, e na saída do estádio desenharam num QUADRO o gol que eu fiz."
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Bicicleta diante de Vidic, Giggs e Evra em City x United
O brasileiro ainda fez bom papel no futebol inglês pelo modesto Hull City, viveu uma experiência nos Estados Unidos defendendo o San Jose Earthquakes - "em uns cinco anos, a liga americana vai estar entre as melhores do mundo" - e voltou à terra natal em PASSAGENS discretas por Vitória, América-MG e Bragantino.
Hoje, aos 34 anos, se iniciando na carreira de empresário - já tem jogadores nos grandes times de Minas Gerais e em Santa Catarina -, o meio campista está a um triz de anunciar a aposentadoria.
"O jogador tem um limite, e pra eu voltar a JOGAR num grande clube, só se for pra encerrar, pra JOGAR um campeonato todo tá meio passado. Talvez no futebol dos Estados Unidos, fora do Brasil. Treino todos os dias, mas só se for alguma coisa que mexa comigo pra eu voltar. Provavelmente eu vá parar."
No próximo domingo, no Morumbi, São Paulo e Cruzeiro estarão frente à frente novamente, desta vez em duelo de vice-líder e líder que pode decidir o Campeonato Brasileiro. Em ascensão, os paulistas contam com o quarteto Kaká, Ganso, Alan Kardec e Pato para diminuir a vantagem do Cruzeiro, atual campeão e primeiro colocado.
A nova empreitada como agenciador de atletas inibe Geovanni a tomar partido do seu ex-clube, mas ainda assim e apesar do carinho antigo pelo Tricolor, o ‘fantasma são-paulino' não esconde que espera ver o time do qual já foi algoz se frustrando novamente.
"Tem uma frase que diz que o medo de perder tira a vontade de ganhar. O Cruzeiro é Cruzeiro hoje e foi antes por causa disso. Eu prefiro que meu time faça dez e tome quatro ou cinco do que meu time fique na retranca, faça um gol e ganhe por 1 a 0. Sou a favor de um futebol bonito e é o que o Cruzeiro está fazendo hoje. Um time que joga pra frente, que busca a vitória a todo momento, nosso time era assim, e por isso aquele dia, na final da Copa do Brasil, sabia que a gente ia ganhar. Eu acho aquele Cruzeiro equivalente a esse. Acho que o Cruzeiro agora tem mais plantel, entendeu a filosofia implantada na Europa, todos entendem que se não jogar hoje, amanhã vai jogar e dar o máximo. O favorito ao título brasileiro é o Cruzeiro."