Revista Veja: O laranja do cartola
Da VEJA
Ao aceitar assumir um cargo decorativo na organização da Copa, Ronaldo arrisca sua reputação e ajuda Ricardo Teixeira a continuar mandando nas sombras
Por OTAVIO CABRAL
Desde que ficou famoso, aos 17 anos de idade, Ronaldo Luis Nazário de Lima exerceu diversos papéis.
Começou como o garoto-prodígio que fez parte da seleção Brasileira tetracampeã mundial.
Tornou-se o craque consagrado, eleito três vezes o melhor do mundo e o maior artilheiro da história das Copas.
Encarnou o vilão da derrota do Brasil para a França na final do Mundial de 1998 e, quatro anos depois, virou o herói do pentacampeonato.
Foi também a vítima de zagueiros violentos, que quase teve a carreira abreviada por contusões em série nos joelhos, e, por fim, “o gordo”, que, próximo da aposentadoria, voltou para o Brasil, conquistou a torcida do Corinthians e se transformou num empresário bem-sucedido.
De todos os papéis que desempenhou, saiu, se não aplaudido, ao menos de cabeça erguida.
Entre os picos e abismos da carreira, construiu uma trajetória vitoriosa e uma reputação de honestidade e coragem.
Agora, o ex-jogador arrisca-se a por tudo isso a perder.
Na semana passada, aceitou assumir um novo papel – o de laranja de Ricardo Teixeira, um dos cartolas mais enrolados do futebol mundial.
Ronaldo foi nomeado por Teixeira para o Conselho de Administração do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014.
No papel, é um cargo pomposo.
Na prática, apenas um biombo para o presidente da CBF continuar no controle da Copa sem ter tanta visibilidade.
Na cerimônia de transmissão do cargo, ele disse ao novo aliado uma frase que revela com clareza suas intenções: “A imprensa é toda sua, Ronaldo”.
A nomeação do ex-jogador ocorre num momento em que Teixeira está na berlinda, rompido com a FIFA e com o Governo Federal.
Ambos querem afastá-lo da organização da Copa.
Joseph Blatter, o presidente da entidade que controla o futebol, ameaça divulgar novas acusações de corrupção contra Teixeira.
A presidente Dilma Rousseff, que desde o início do mandato tem deixado evidente seu desprezo pelo chefe da CBF, recusou uma oferta de reaproximação intermediada pelo novo ministro Aldo Rebelo.
Ameaçado de perder poder na organização da Copa, o cartola achou mais prudente se esconder nas sombras e trabalhar nos bastidores para sobreviver.
Ou seja, escolheu perder os anéis para não perder os dedos – e, com os dedos intactos, manter o poder nas mãos.
A função de Ronaldo será de relações públicas, para não dizer decorativa.
Tratará com a imprensa e será estrela de eventos promocionais.
Enquanto isso, os negócios da Copa continuarão tratados por aliados e subordinados de Teixeira, que nem mesmo se afastou formalmente do COL.
A diretora executiva do Comitê é Joana Havelange, sua filha.
O diretor jurídico é Francisco Mussnich, advogado da CBF.
O coordenador de operações é Ricardo Trade, ex-funcionário de suas empresas.
E o diretor de comunicação é Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF.
Enquanto o laranja Ronaldo sorri e posa para fotos, essa turma comandará os contratos e negociações bilionárias para a Copa, que deve movimentar R$ 100 bilhões.
A função do ex-jogador será parecida com a que Franz Beckenbauer teve na Copa da Alemanha em 2006, de embaixador do evento.
E distante da exercida em 1998 pelo Frances Michel Platini, que comandou de fato a Copa e, depois, se tornou um respeitado dirigente, cotado até para chefiar a FIFA.
A nomeação de Ronaldo não foi o único golpe de Teixeira para tentar sair das cordas.
Ele tem se aconselhado com o ex-presidente Lula, em busca de apoios nos meios políticos e no mundo esportivo.
Por sugestão do corinthiano Lula, escolheu o presidente do Corinthians, Andres Sanches, para ser o novo diretor de seleções da CBF – e, depois da Copa, seu candidato à presidência da entidade.
Andrés tem a missão de quebrar as resistências dos principais times brasileiros ao cartola e impedir que seja criada uma liga de clubes para organizar o Campeonato Brasileiro, o que colocaria ainda mais pressão sobre Teixeira.
A estratégia do cartola, porém, parece não ter sido eficiente.
Dilma, em conversa com assessores, adiantou que não pretende negociar as pendências da copa com Ronaldo.
Blatter segue empenhado em derrubar o rival do trono da CBF e impedir que ele dispute sua sucessão em 2015 – promete novas denuncias ainda nesta semana e quer fazer mudanças no estatuto da FIFA que impeçam a candidatura de “fichas-sujas”.
Com a mudança no COL, Teixeira continua como sempre esteve: com poder, sem credibilidade e envolvido em suspeitas.
Já Ronaldo tem muito a perder.
Além de meter as chuteiras no pantanoso terreno em que Teixeira chafurda há décadas, ele corre o risco de se dar mal nos negócios.
Algumas das empresas que patrocinam jogadores agenciados por ele, como Claro e AMBEV, são concorrentes das que patrocinam a CBF e a FIFA.
Mesmo diante do conflito de interesses, Ronaldo se recusou a abandonar o comando da empresa para assumir o novo cargo.
Já se disse que Pelé, de boca fechada, era um poeta.
Ronaldo está a caminho de provar que, fora dos campos, é o rei da bola fora.
http://blogdopaulinho.wordpress.com/2011/12/05/o-laranja-do-cartola/
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