Rogério Ceni, na contra-mão
Rogério Ceni, na contra-mão
08/09/2011
O entusiamo com Rogério Ceni ultrapassa o espírito são-paulino. Até aqueles menos envolvidos com o futebol enquanto esporte e não enquanto negócio erguem as sobrancelhas ao ver o agora já lendário goleiro do Tricolor Paulista. Ceni refez em um mundo moderno aquilo que era o comum e, de certa forma, o ideal, de um mundo em que viveram Pelé e Ademir da Guia. Ficar em um time não como peça, mas como alma – essa foi a vitória maior de Ceni. Quando a sombra de Ceni não estiver mais abaixo das traves, o São Paulo voltará a ser como ele foi na despedida de Leônidas, o Diamante Negro: um clube órfão.
Há muitos jogadores de futebol no Brasil. Fazem do futebol um bico. Muitos são profissionais, mas ganham menos que um salário mínimo. Animam o mundo fora da TV. Isso ainda existe no Brasil e, exatamente por causa disso, é possível aos grandes clubes montarem equipes de craques e criar entre nós uma cultura que, agora, já é definitivamente a marca do país. Essa legião de jogadores pobres, ainda que pobres, vivem já a modernidade do futebol: são trocados e vendidos; entram para sair - só isso garante-lhes o futebol e o pão. O ideal moderno de uma sociedade de mercado, finalmente é a regra de todas as nossas relações. No futebol, ela chegou não faz muito tempo para todos. Mas, do modo que chegou, criou aquilo pela qual ela veio – cumpriu seu destino: fazer do homem o objeto, não mais sujeito das ações, mesmo nos lugares onde tudo que o homem faz é só ação, como no esporte, principalmente o futebol.
Talvez o futebol seja o lugar onde as relações modernas de vida, antes mesmo que a fábrica, tenham ficado mais nítidas: nada é de algum lugar, todos são apenas do lugar da troca. O clube ou o time existem, ainda que nenhum jogador exista como homem de um time e, sim, de todos. E o que é de todos, não é de ninguém, muito menos de si mesmo. Vestir uma camisa de um novo clube é, antes de tudo, colocar dinheiro no bolso e ter a oportunidade de alimentar mais “Marias Chuteiras”, nesse mundo onde a pílula masculina ainda não chegou. Também é, nessa hora, que o futebol negócio, o único que existe, se realiza. Na verdade, o que se passa é que todos vivem sem clube, sem time, sem pátria, sem paixão. O ideal do anarquismo se realizou às avessas no futebol. Todo indivíduo acabou virando mesmo um indivíduo. Mas, quando todos indivíduos tornam-se indivíduos, iguais enquanto indivíduos, então a própria idéia de indivíduo como sujeito, com identidade, desaparece. Num mundo de grandes craques, todos trocáveis, todos podem ter algo de valor em dinheiro e, no entanto, já não valerem nada para si mesmos ou para os amantes do futebol. Por isso mesmo, ninguém sabe quem é Ademir da Guia ou Diamante Negro. E se Pelé ficou, foi porque ele conseguiu ser a exceção cuja única tarefa é a de estampar a regra. Pelé se tornou um monumento que é posto no altar em que a modernidade paga o preço ao mundo pré-moderno, homenageando-o apenas para lembrar a todos o quanto este está derrotado. Por isso, Pelé é único. Não é necessário dois monumentos para comemorar uma só vitória – definitiva.
Ceni não será Pelé. As próximas gerações o conhecerão, no máximo, como “treinador do São Paulo”. Não entenderão que ele foi um cometa que riscou o céu da capital paulista com as cores de um futebol que já não existia mais, nem mesmo no primeiro dia em que ele estreou com a camisa do São Paulo FC. Ceni é um dinossauro. Um dinossauro criativo, pois nunca um goleiro fez gols como ele fez. Mas, ainda assim, por ter sido um jogador-torcedor, ele foi aquilo que ninguém sabe mais o que é.
Ceni não faz arruaça. Ceni não fica bêbado. Ceni não aparece em noitadas. Ceni não é carola. Ceni não lava dinheiro através de Igrejas. Ceni não vai para a TV para se vangloriar. Ceni sobrevive como craque e ídolo sem a Seleção Brasileira e sem “clubes do exterior”. Ceni vive para a disciplina do esporte. Ceni é o menino que vai de casa para o clube, com sua mochila, brincar de bola. Ama o futebol num mundo em que ninguém ama mais nada por mais de 24 horas. Ceni vai ficar deprimido quando parar. Caso Ceni fique doente, vai arrancar lágrimas minhas, como as que Sócrates – outro desses monstros – vem arrancando. Ceni é aquela figura que inventou, certo dia, de desafiar Karl Marx.
Marx não foi o único que falou que as relações modernas de trabalho imporiam a ditadura da abstração. Mas, é certo, Marx foi original em especificar que a abstração não seria um processo mental e, sim, um processo no âmbito da vida efetiva. Cada homem iria ficar pausteurizado e seria igualado, uma vez no mercado, adquirindo então valor-de-troca, deixando para trás o valor-de-uso, podendo ter seu equivalente em dinheiro e, então, visto como aquele que pode passar de time em time, de torcida em torcida, de mulher em mulher e, enfim, de escândalo em escândalo. A mercadoria é isso. Ela tem cara de … mercadoria, ou seja, cara de nada. Cada grande jogador, mesmo milionário, é igual ao jogador de menos de um salário mínimo. Irá para o mercado e lá será batizado: mercadoria-jogador, preço X dólares. Então, ocupará uma função em um outro clube e em outro e em outro e, enfim, em um domingo qualquer, desaparecerá para sempre. Acabou. A peça não poderá mais ir para o mercado. Não podendo ir para o mercado, não poderá ir para lugar algum. Não existe aposentadoria para o homem moderno, ainda que o homem moderno a tenha inventado e a instituído na modernidade, por meio do Welfare State.
Cada jogador de futebol é jogador de futebol se pode ser vendido ou trocado. Fora disso, não é nada. Rogério Ceni tentou ser jogador e somente jogador – contra os tempos modernos. Conseguiu. Mas, ao final, no último dia, será jogador moderno. Não foi vendido, não trocou de clube, mas irá trocar de camisa. A camisa de goleiro do São Paulo passará para outro, e ele não terá mais nenhuma camisa de jogador – nunca mais. Voltará para casa. Qual casa? Rogério Ceni tem uma casa que não seja o vestiário do Morumbi? Duvido. Nenhum de nós tem casa que não os lugares de trabalho. Só ali somos pessoas, pois só ali deixamos de ser sujeitos e passamos a ser objetos, como Marx disse que seríamos. Sendo objetos, somos o vivo que se fez morto, pois se portar como morto, mesmo que em ação – correndo, como no futebol – é a única forma de ter a sensação de se estar vivo dentro da Matrix da modernidade.
Você que terminou a leitura, tente voltar para casa. Verá que não possui nenhum lar. No lar, não é ninguém, mesmo que pense ser tudo. Só no trabalho pode ser alguma coisa. O que? Mercadoria: vale à medida que pode ser trocado, deslocado, realocado, despedido. Só sendo descartável é gente. Só não sendo gente, pode parecer ser gente e continuar vivendo. Isso é você. E sem o salário do Ceni.
2011 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor de filosofia da UFRRJ
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