São Paulo: a terra prometida reduzida a muro das lamentações
Já passou da meia-noite no Morumbi, e o que um dia foi conto de fadas hoje se transformou em um gênero inovador, ao mesmo tempo tragédia, suspense e comédia pastelão. A renúncia prometida pelo presidente Carlos Miguel Aidar, que deve ocorrer nesta terça-feira, é o ápice de uma trajetória marcada por desmandos, suspeitas e gafes públicas. O clube que sempre foi admirado por ser uma espécie de éden no futebol brasileiro está à deriva, aos frangalhos, flutuando rumo ao desconhecido.
Para a geração que tem entre trinta e quarenta anos, em certo momento, no começo dos anos 90, o São Paulo significava o que de melhor o futebol poderia apresentar: a equipe de Telê Santana, recheada de craques e jogando por música, fazia brilhar aqueles olhos já não muito inocentes e servia de espelho para o que sempre aprendemos ser a escola brasileira de futebol. Talvez aquele São Paulo tenha sido o único time brasileiro, depois do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, com capacidade de reunir simpatizantes e entusiastas em todo o país. O resultado foi certa herança afetiva entre todos que viveram com o viço da juventude aqueles loucos anos em que Fernando Collor de Mello, Axl Rose e CLÁUDIA OHANA eram meros coadjuvantes de luxo na obra-prima estrelada por Raí, Müller e PINTADO, entre outros.
(Foto: Site do São Paulo.)
Naquelas duas finais do Mundial de Clubes, para nós adolescentes era obrigação contrariar os ditames sociais e varar a madrugada esperando para ver o São Paulo moer Barcelonas e Milans – e assim acontecia porque, ao contrário do que geralmente sucede hoje quando europeus e sul-americanos se encontram, o esquadrão de Telê Santana os encarava em condições de igualdade, no mínimo. Além dos títulos, no entanto, o que o clube são-paulino nos transmitia era uma imagem de soberania imperturbável. Lembro de uma vez, em 93, me sentir profundamente orgulhoso após uma brilhante derrota por 3 a 2 daquele inesquecível Inter noventista capenga em pleno Morumbi. (Ganhar na época, era impossível, mas nós QUASE não perdemos.)
Os anos avançaram e obviamente aquela orquestra comandada por Telê Santana se desfez e não se repetiu, mas o São Paulo continuava uma grife inquestionável, exemplo de organização. Em resumo, um ambiente ONÍRICO onde reinavam a paz e a prosperidade, que povoava a mente dos outros torcedores brasileiros, acostumados às angústias que geralmente acometem os meros mortais. Sempre que uma tragédia ou fiasco de ocasião acontecia em nosso clube – um rebaixamento, uma humilhação, uma tormenta política – secretamente pensávamos que aquilo jamais aconteceria no Morumbi. O São Paulo era a terra prometida do futebol, que chegava a irritar com tanta altivez.
(Foto: Carla Carniel - Ag. Estado)
Diante de tudo isso, olhando em retrospectiva, parece surreal que o presidente são-paulino vá renunciar nesta terça-feira, após repetidos escândalos que em nada lembram aquela pasárgada de tempos tão recentes, uma bem-aventurada ilha que se destacava em meio ao turbulento oceano cor de chocolate do futebol brasileiro. A gestão Carlos Miguel Aidar representa apenas o capítulo mais extremo e FANFARRÔNICO de uma sucessão de inconvenientes acumulados, como a ausência de novos dirigentes, defasagem de conceitos e um conselho praticamente imutável.
Porque, ao contrário de Atlântida, o São Paulo não afundou em um único dia e noite de infortúnio, mas veio submergindo lentamente. Nós, geração de trinta e poucos anos, para sempre renderemos preces ao São Paulo de Telê Santana, mas hoje já sabemos que temos nova e solidária parceria, justamente aquela companhia que faltava, no momento de lamentar as misérias tão mundanas de nossos clubes.
http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/meia-encarnada/post/sao-paulo-terra-prometida-reduzida-muro-das-lamentacoes.html
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