O Desafio de Muricy - Simplificar
Simplificar. Vocábulo que, para Florbela Espanca traduz a busca pela felicidade. Palavra que também ocasiona estranheza e má interpretação aos analfabetos funcionais de nossos dias. Confundem fazer o simples com ser meramente simplório. Não é surpresa termos tantos jovens-adultos reprovando no Exame do MEC. Muricy que o diga.
Com o advento crucial da chegada de Aidar, o técnico são paulino parecia ser unânime no paladar futebolístico do mandatário tricolor, que chegou a assegurar a presença de Muricy até que findado esteja seu mandato. Mas o mundo gira - e o futebol é uma bola. Neste admirável mundo novo, o tempo é dinâmico e não poupa ídolos.
Mesmo com a tênue relação entre diretoria e treinador, o São Paulo elencou um plantel de nível internacional. O que credencia o time a ser coroado nas diversas competições. Certo? Sim e não. Mesmo com tamanhas opções, Muricy tem mostrado dificuldade para escalar o time. O que deveria ser tarefa não fácil - mas prazerosa, tornou-se a ceifa que o assola.
Com a iminência de ver o arquirrival prosseguir na competição que é, como cantarola os torcedores, "obrigação" de vencer, a pressão está prestes a estourar a panela. Muricy complica onde tem que simplificar, e simples se tornará a sua saída pelas portas dos fundos, caso não vença a aclamada Taça Libertadores da América.
Se não é exímio, como foi Telê, em configurações táticas que desnorteiam os rivais, Muricy é bom líder. Isso o contemplará até dado momento. Exemplo claro: o elenco tem um hall de estrelas e alguns quasares. Deixar chocando o banco de reservas atletas deste porte, é pedir pra ser fritado; e o frigir dos ovos vem tão rápido quanto mandar a campo quem realmente está apto a exercer tal função.
Linhas de defesa, meio e ataque compactadas não acontecem por mero desleixo. Pouco se vê falar em treino tático nas alamedas do Morumbi ou nos arredores do CCT da Barra Funda. Muricy opta por liberar o afamado "rachão" entre os atletas. Quem conhece essa disputa, sabe que ela não agrega em nada. E o resultado de tanta apatia se dá no campo.
Em tempo, vê-se um São Paulo com descomunal força ofensiva e assombrosa deficiência defensiva. Problema que poderia ser corrigido com um simples 4-4-2. O que vem sendo feito, mas com inversão de posições. Thiago, que deveria ser o segundo volante ao lado de Denilson - enquanto Souza não reúne condições de jogo, é escalado como ponta direita. Maicon, meia de origem que é posto no lugar que deveria ser, por logística, de Thiago, falha ao tentar desempenhar o que lhe é passado. Pra quem já teve Dino Sani, aturar Maicon na volância é o simbolismo de uma teimosia que pode custar muito caro. Tão caro quanto tem sido bancar os salários dos jogadores que esquentam o banco para ele atuar.
O mais aterrador é que não para por aí. Há ainda a dúvida - e Muricy tem o benefício dela nesse início de temporada. Mas logo a perderá. Fabuloso e Pato, ou Kardec e Fabuloso? Pato e Kardec é bastante improvável pela fase excepcional do centroavante que escreve verdadeiras fábulas com suas diagonais primorosas. Há a terceira e mais provável, que é a entrada de Centurión na vaga de Pato. Formando-se um meio-campo com Souza, Denilson (escalaria Thiago, mas o especialista não vê assim), Ganso, Michel e Centurión; Fabuloso como o Quasar solitário. Não é nenhuma figura geométrica; não é um losango ou quadrado, é um meio-ataque que, para os moldes atuais, é espetacular. É a base que deve entrar em campo dia 18, data da estréia do Maior do Mundo na Libertadores.
O ataque resolve. Prova disso são os nove gols em nem tão incríveis três jogos. A defesa deixa qualquer motoboy a comer poeira, de tão rápido que entrega os gols. O sistema defensivo é comumente atribuído aos quatro homens que resguardam um determinado setor. Mas, vai muito além. Quando as linhas estão ajustadas, e há uma entrega maior, todos se tornam defensores e a conquista vem com mais facilidade.
Resta, sem sombras de dúvidas, uma luz penetrar na cabeça dura do esquentadíssimo Muricy e fazê-lo compreender que esmagar a obstinação pelo complicado é trancafiar o fracasso no livro de pandora. E esses feitos só são alcançados com simplicidade. O São Paulo tem um atletas de qualidade e qualidade para ser um time. Simplificar é melhor que prevenir e remediar. É elevar um jogo de futebol à condição de arte.
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