Renúncia à base foi determinante para demissão de Muricy Ramalho
POR DASSLER MARQUES
Em alguma das ótimas edições da extinta Revista Espn, o brilhante colega Luis Augusto Símon, o Menon, descrevia uma cena emblemática. Ocorreu no CFA de Cotia, em 2009: a notícia vinha da Barra Funda para a base, e dava conta de que Muricy Ramalho havia deixado o São Paulo. A demissão sucedeu uma grande comemoração entre os garotos e um ou outro funcionário, com direito a chuva de camisas. No Santos, não se sabe se houve chuva de camisas, mas a demissão selada nesta sexta-feira fez muita gente da base festejar.
A renúncia aos jovens foi o fator principal para o desgaste que se criou na Vila Belmiro em torno de Muricy nos últimos meses. De treinador vitorioso, que arrumou o sistema defensivo e engrenou à conquista da Copa Libertadores, sua imagem pouco a pouco passou a ser de mal humorado, egocêntrico, taticamente limitado e, acima de tudo, turrão com os jogadores jovens. A muitos deles se referia como “moleque” ou coisas do gênero. Irônico para quem teve os dois primeiros grandes trabalhos da carreira justamente de forma oposta: no São Paulo de Denílson e Juninho Paulista, campeão da Copa Conmebol 1994, e no Internacional de Nilmar, Daniel Carvalho e Diego.
Os números podem objetivamente mostrar o quanto Muricy fracassou naquilo que é premissa básica para qualquer treinador do Santos. Em pouco mais de dois anos no cargo, lançou um total de 23 jogadores das categorias de base, mas efetivamente não revelou ninguém. O nome mais acionado por ele foi Victor Andrade (95), o único a superar 20 partidas com o agora ex-chefe. Victor, o mais indicado dentro da base para um dia suceder Neymar (92), está agora relegado ao ostracismo. Na atual temporada, totaliza 24 minutos em campo.
Victor Andrade foi uma das vítimas da má vontade do treinador. Foi punido por visitar o Barcelona nas férias de dezembro e saiu dos planos por desentendimentos que, com sensibilidade, poderiam ser contornados. A principal vítima, porém, certamente foi Felipe Anderson (93), que não entra na conta por ter sido lançado pelos treinadores antecessores. Foram notórias as broncas públicas de Muricy em Felipe, apontado dentro do clube como o substituto ideal para PH Ganso (89). A torcida, por muitas vezes, entrou na onda. E aos poucos, a confiança do talentoso jogador se esvaiu. Nos últimos meses, Felipe Anderson é inseguro e parece amedrontado no campo de jogo. Será negociado.
No auge de sua birra com Felipe, Muricy Ramalho chegou a afirmar que os “jogadores vêm com defeito de fábrica”, uma crítica direta ao vitorioso departamento amador do Santos. Como resposta, em janeiro desse ano, os juniores santistas foram, com brilho, campeões da Copa São Paulo. A conquista acirrou a cobrança sobre Muricy que, nem mesmo com as péssimas atuações do time no vice-campeonato paulista, tratou de ceder aos apelos. Em reunião do Conselho, ironicamente se sugeriu que a taça da Copinha fosse colocada na sala do treinador.
Não teria adiantado, no fim das contas. Alan Santos (89) e Giva (93), os únicos que pareciam ter a confiança de Muricy, se lesionaram, e a opção sempre foi pelos mais experientes. Por Guilherme Santos e não Emerson. Por Patito Rodríguez e não Victor Andrade. Por Bruno Peres e não Alison. Por Marcos Assunção e não Leandrinho ou Lucas Otávio. Por Pinga e não Léo Citadini. A direção santista, não por acaso, anuncia que irá no sentido contrário: os favoritos são Dorival Júnior e Claudinei Oliveira, dos juniores. Para o bem do futebol, o Santos deve novamente buscar seu DNA. Sem Muricy.
http://esportes.terra.com.br/futebol/prata-da-casa/blog/2013/05/31/renuncia-a-base-foi-determinante-para-demissao-de-muricy-ramalho/
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